Sou
reincidente, no que ao esquecimento diz respeito. Perco-me, com alguma
facilidade, nas memórias. Mas, não esqueço. Talvez dissipe as datas. Não as
encontre com situações. Porém, regularidades à parte, acontece-me ser certeiro,
inclusivamente, no ano, idade, lugar e pessoas envolvidas. Aos 12 anos, no
âmbito de um projecto de teatro, estendido da vontade de um grupo organizado.
De escola. Em francês, era a peça. Neste momento, rio-me com vontade, não de
gozo, mas de gosto, quando recordo que já fiz teatro. Mas fi-lo em francês.
Fosse italiano e tê-lo-íamos adoptado. Ensaiamos com entrega e dedicação. A
encenadora, francesa efectiva e convicta, era fatalmente exigente e rigorosa.
Óptimo. Mas falhou. Os melhores falham. Aprendi em novo. Ensinaram-me em
português de Portugal. A dias da estreia, aos 12 anos, recusei avançar. Em
jeito de denúncia da incapacidade da encenadora gerir outros colegas. Recusei
depois do esforço. Recusei porque não tolero desigualdade e burgessos comportamentos.
Mesmo que não sejam comigo. Ou não sejam contra mim. Já nessa altura. E, assim,
não subi ao palco. Ao palco à nossa dimensão. Seria uma grande estreia. Já, com
12 anos, me incomodavam solenemente os narizes empinados, os dedos apontados,
os olhos enviesados e os discursos desconexos e ofensivos. Ainda que, em
estrangeiro. Já, aos 12 anos, fazia a distinção. E não me arrependi. E não me
arrependo de, naquele dia, com aquela idade, me ter permitido ter opinião e
voz. Não me arrependo de, aos 12 anos, não ter avançado para o palco,
representando em francês. Encarei com satisfação a arrogância alheia, espelhada
no desdém com que me passou a tratar. Deixei de ouvir, sequer, um bom dia, em
francês. E orgulho-me. De ser mais do que mesquinhez. Seja em português, seja
em francês.
Personalidade.....moralidade...princípios já bem definidos....
ResponderEliminarÉ de louvar a coragem para tamanha facenha, a tão poucos dias da estreia!
Engraçado como há coisas assim que jamais esquecemos, porque no auge da nossa ainda passagem de criança a jovem já nos conseguirmos impor a algo de tanta grandeza! Parabéns pela coragem, imagino que não tenha sido fácil....mas o orgulho que sentis-te de ti proprio acompanha-te ao longo dos anos...e um dia quando estiveres com dificuldade de agir perante algo.... vai buscar o menino de 12 anos....o Português....o Real!!!
beijinhos
Quero acreditar que, tanto hoje, como naquela altura esses princípios já faziam parte da minha personalidade e educação.
EliminarA memória, dizem, tem formas extraordinárias de se organizar. É a prova de que, quando nos marcam, ficam por cá. Escusado será dizer que, jamais, voltei a fazer teatro ;)
É, inevitavelmente, uma memória que me deixa feliz. Quem sabe, um bom indutor para momentos menos bons :)
Beijinhos
Sem dúvida, os princípios e educação se forem cultivados desde cedo, para além da personalidade própria de cada um, não dependem da idade que temos...elas estão lá!!!
EliminarO carácter... o bom carácter é o que nos define... o mau não define ninguém... digo eu!!
:)
beijinhos
E dizes muito bem :)
EliminarBeijinhos