17.12.13

Em diferido.

O portão automático abriu, depois da campainha soar. Do lado de lá, um jardim infindável, recusava mostrar o piso zero da vivenda. Um bonito e bem tratado jardim. Muito trabalho e horas de entrega, estão espelhados ali. Entre o colorido das plantas, surge uma senhora. Conta, com certeza falsificada, com mais de setenta anos. Arrisquei para mim. Sorriu-me. Pediu-me que entrasse. Fi-lo e retribui-lhe o sorriso. Dois beijos. Gabei-lhe o bonito jardim. Estava à minha espera. Indicou-me o caminho para o interior da casa. Disse-me o nome. Perguntou-me o nome. Seguimos para o salão. Ao centro, uma imponente e portentosa lareira, ladeada por uma, não menos imponente estante. As paredes de um amarelo pálido, os sofás ao centro. Sentamo-nos. Ali, à conversa. Foi simpática. De estilo simples e despreocupado, fomos conversando. Temos, vim a saber, pessoas em comum. Até aqui, desde que mostrei gostar do seu jardim, explicou-me tudo. Lamenta a quantidade de água que despende. Vive, aos setenta anos que lhe atribui, sozinha. Naquela casa. A rua, as pessoas, as suas plantas, o seu jardim, são, com um sorriso, a sua companhia. A cada dia, não dispensa sair e ver. Todos os dias, com verdade, mantém a necessidade de socializar, muito viva em si. A senhora que tem uma vivenda é, também, a senhora que tem e cuida de um bonito jardim. Não obstante, vive. Vive para lá do portão automático. E gosta de viver. Gosta de ver pessoas e interpelá-las. Gosta de tudo isso, quando, do portão para fora, não se refugia no jardim.

2 comentários:

  1. Gosto particularmente de pessoas simples, das que se dão sem reservas. Para além disso, forma maravilhosa com que descreveste todo o cenário, levaste-me contigo, consegui visualizar o jardim cuidado, notando-se nas flores e plantas o carinho que lhe é dispensado! Eu sou demasiado atabalhoada nesse aspecto, adoro plantas e tenho-as, mas confesso-me, não lhes dedico o amor que elas precisam....nem a água, pobrezinhas!! ;)
    Consegui sentir o calor dessa senhora, calculo que terá muito para contar e que tudo será aprendizagem, para quem lhe dedique a atenção merecida. Afinal, andamos todos a correr.... e deixamos tantas vezes fugir da nossa rota casos assim....de pessoas "BONITAS" :)
    ConViver....é tão bom...e Ela, sabe!!
    Beijinhos*** e Até já!!

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    1. Eu também gosto muito de pessoas, pelo que nos proporciona. É gratificante cruzarmo-nos com gente que tem muito para dar. Só nos faz bem.
      Obrigado!
      Quanto às plantas, também as admiro, mas nunca fui bom cuidador. É preciso muita paixão e disponibilidade.
      Esta senhora tem um leque infindável de vivências para contar. Fiquei-lhe a conhecer uma ínfima parte. Tanto ficou ainda guardado.
      ConViver! Gostei :)
      Beijinhos
      Até já!

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