Nunca
usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância,
porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se
jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade.
Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em
circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a
gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me
tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da
verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de
ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e
gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas
o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos,
ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça
importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a
memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de
exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um
quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram
as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu.
Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o
com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação,
mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque
partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa
gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual.
Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um
brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me
passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos.
Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.
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