16.6.14

Relação, para que te quero?

Encontrei a Maria, no jeito da ocasião. Vinha sorridente e leve, de sol a bater, de óculos escuros na mão, como se deles não se lembrasse, por isso, de olhos piscos, a esconderem-se e a defenderem-se da luz que lhe roubava a visão. Vinha depois daquele arco, antes do outro. E o sorriso vinha no rosto. Cruzamo-nos e, inevitavelmente, cumprimentamo-nos. É boa disposição. Dois beijos, abraço e conversa de situação. Não falámos sobre o Tiago. Estranha-se, depois é corriqueiro. Antes desta separação, não me lembro de os ver sozinhos. Um sem o outro. Era uma combinação, se quisermos, improvável, mas fazia um todo convincente. Divertimo-nos, sempre, bastante. Tanto que, antes do anúncio e da argumentação, havíamos repetido um excelente momento. Agora, iam separar-se. No dia anterior, enquanto planeavam mudar os estores da casa nova, depois da restante remodelação, perceberam que não mais fazia sentido. Pode parecer cruel. Mas é sustento. Inventar para procrastinar, rouba identidade. Sustente-se enquanto é tempo, sob pena de serem, a curto prazo, dois arrumados bonecos no maple da sala lá de casa, tão bem decorada ou no carro dos sonhos de muitos, no regresso de um fim-de-semana prolongado. A crueldade de um acto causa dor. Dor que passa. Ao contrário da inércia que abate qualquer títere.

2 comentários:

  1. Dói-me muito ver quando dois amigos, inevitavelmente, se decidem afastar. Sei que há a tendência natural de não meter a colher entre marido e mulher, mas o que é facto é que os amigos também fazem parte desses arranjos. Por isso, quando passam a ser desarranjados, fico triste, porque há sempre algo a escolher. Mas compreendo, porque ninguém é para sempre e, se eu acredito nisso, acredito também que quem está dentro da relação sabe o caminho ideal. E quem seremos nós se não formos amigos para o que der e vier?*

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  2. Excelente resumo. Identifico-me em tudo. Agastam-se as relações, por motivos vários, e quantas vezes, os amigos que estão logo ali, nem reparam no desgaste. Habituamo-nos a vê-los juntos e parece suficiente. É, inevitavelmente, para quem assiste, uma tristeza. É uma comunhão que acaba. Restar-nos-á, tal como dizes, mantermo-nos à disposição. Para a festa e diversão, como para a ferida e a incompreensão. Beijo :)

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