17.6.14

17 de Junho de 1996.

Houvesse um sem número de minutos ou linhas e perder-me-ia a descrever o primeiro dia da vida dela, o primeiro dia das nossas vidas com uma nova parte. Não é parte, não é, pelo menos, uma qualquer, se insistirmos no quão apoucada pode ser a porção de um todo. Neste tempo, tiramos verdade das expectativas. É uma das partes maiores da nossa vida. É o lado de menina, de criança. Ambas de jeito eterno. É liberdade nas expressões garridas, no trato rasgado de quando em vez. Na eterna forma de sonhar, de deslindar avarias de um percurso ou de se desmanchar com o peso e a dor de outros. É amarga, por escolha. É doce, na íntima relação dos que lhe importam. É determinação e decibéis articulados no momento de se afirmar. É uma impressionável amostra da nossa mãe, física e psicologicamente. Sem que as comparações se sobreponham. É individual no que é mais íntimo, sem se influenciar com as vozes alheias. Procura, contudo, a opinião. É paixão por acessórios sem fim, pelas roupas que compra e que, invariavelmente, as justifica com a necessidade, que bem sabemos, é dissonante da sua feliz realidade. É dona de um discurso tão coerente e pragmático que nos delicia ouvi-lo. É a nossa, a minha menina. Tornou-se, volvidos os instantes primários da gestação, por isso, antes mesmo do primeiro dia da nossa convivência, o meu orgulho. Não sei explicar, senão assim. Gosto de sabe-la preocupada por um punhado de tantas questões. Não adormeceu no conforto que lhe coube em sorte. A paciência cai-lhe em saco roto, diz-me, por não lhe fazer sentido. Como se tivesse poder de decisão, escolhe tudo para ontem. Apraz-me saber que me procura quando alguma situação a aflige ou quando o momento é feliz. Deliciam-me as conversas sem fim, por nunca as concluirmos, que temos tantas vezes. Daquelas que ficam sem direito a conclusão. Talvez, por força da idade que nos separa. Não sendo uma diferença extraordinária, molda-nos alguns pontos de vista. Nas outras questões, somos sintonia. Mas, volto ao primeiro dia. Eu estava fora, só havia de chegar mais tarde. Assim, todo o aparato escapou-se-me. Dispensaram-me a ansiedade de perspectivar o seu nascimento. Depois, ganhei em dobro, quando a vi. Hoje, dezoito anos depois, tenho o discurso tão emaranhado, que tudo me parece estranho, cada palavra que leio, depois de escrever, me soa confusa. Dezoito anos. É a apropriação de uma liberdade que, sem saber, já existe. É o reforço da razão e da compreensão que se suportam no feliz acontecimento de ter direito à responsabilidade. Havemos de comemorar logo à noite, depois de um dia cheio. Entre grande parte dos que te admiram e querem sempre presente. E, por momentos, vais ficar envergonhada, quando fores, merecidamente, o centro de toda a atenção. De bolo decorado, de velas da liberdade. Diferente das vezes em que, junto à piscina, de biquíni piroso, pousavas para a máquina fotográfica, de rosto tão divertido, de olhar ainda mais reguila. Parabéns!!! Um conjunto inumerável de beijos. O melhor, garanto-te, ainda está para vir.

Sem comentários:

Enviar um comentário