Escrevi
no ano passado, neste dia, perto da hora. Repito-me, sabendo que o faço. Só a
doçura faz sentido, mesmo que se multiplique por vezes sem fim. Mesmo que me
repita. Só porque faz sentido. Houvesse um sem número de minutos ou linhas e
perder-me-ia a descrever o primeiro dia da vida dela, o primeiro dia das nossas
vidas com uma nova parte. Não é parte, não é, pelo menos, uma qualquer, se
insistirmos no quão apoucada pode ser a porção de um todo. Neste tempo, tiramos
verdade das expectativas. É uma das partes maiores da nossa vida. É o lado de
menina, de criança. Ambas de jeito eterno. É liberdade nas expressões garridas,
no trato rasgado de quando em vez. Na eterna forma de sonhar, de deslindar
avarias de um percurso ou de se desmanchar com o peso e a dor de outros. Aquela
miúda, de quem me lembro de pés em riste, para se afirmar numa altura que ainda
não era a sua. Em pontas, qual bailarina treinada, voltava sempre à posição. E
teimava na impaciência e na liberdade precoces. Porventura, artérias
fundamentais da idade de menina. Gritava, em achando necessário, porque
imaginava que lhe dava os centímetros ainda ausentes. Imitava os animais com
uma personalidade desigual. Não guardava as suas opiniões e amputava os
discursos dos outros que, em antecipação, achava nocivos. Não foi menina
bailarina na pista, mas guardava nos actos a intempérie que lhe permitia ser
dona de uma genica de pensamento. Hoje é uma jovem mulher. Opina sobre tudo e
sobre nada. Sempre com tamanha convicção. Defende todas as questões com o mesmo
peso e a mesma medida. Continua a acreditar em tudo o que a movia no passado.
Ri-se com a intensidade característica, enquanto os cabelos ligeiramente
ondulados lhe tapam a cara maquilhada. Hoje temos praticamente a mesma altura.
Miúda velhaca. É uma data especial, bem sei. Mas escrevi sobre ti por me
lembrar o ano inteiro. Fosse do teu gorro felpudo na neve, num inverno
distante, fosse nos teus olhos claros, ainda mais claros pelo reflexo da
piscina, onde fazias poses várias para a fotografia. A minha irmã mais nova foi
essa rabina, mas é hoje outras coisas. Tantas que nunca sei o que vem a seguir.
É uma impressionável amostra da nossa mãe, física e psicologicamente. Sem que
as comparações se sobreponham. É individual no que é mais íntimo, sem se influenciar
com as vozes alheias. Gosto de sabe-la preocupada por um punhado de tantas
questões. Não adormeceu no conforto que lhe coube em sorte. A paciência cai-lhe
em saco roto, diz-me, por não lhe fazer sentido. Como se tivesse poder de
decisão, escolhe tudo para ontem. Havemos de comemorar logo à noite, depois de
um dia cheio. Entre grande parte dos que te admiram e querem sempre presente.
E, por momentos, vais ficar envergonhada, quando fores, merecidamente, o centro
de toda a atenção. De bolo decorado, de velas da liberdade. Diferente das vezes
em que, junto à piscina, de biquíni piroso, pousavas para a máquina fotográfica,
de rosto tão divertido, de olhar ainda mais reguila. Parabéns! Um conjunto inumerável
de beijos. O melhor, garanto-te, ainda está para vir.
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17.6.15
17.6.14
17 de Junho de 1996.
Houvesse
um sem número de minutos ou linhas e perder-me-ia a descrever o primeiro dia da
vida dela, o primeiro dia das nossas vidas com uma nova parte. Não é parte, não
é, pelo menos, uma qualquer, se insistirmos no quão apoucada pode ser a porção
de um todo. Neste tempo, tiramos verdade das expectativas. É uma das partes
maiores da nossa vida. É o lado de menina, de criança. Ambas de jeito eterno. É
liberdade nas expressões garridas, no trato rasgado de quando em vez. Na eterna
forma de sonhar, de deslindar avarias de um percurso ou de se desmanchar com o
peso e a dor de outros. É amarga, por escolha. É doce, na íntima relação dos
que lhe importam. É determinação e decibéis articulados no momento de se
afirmar. É uma impressionável amostra da nossa mãe, física e psicologicamente.
Sem que as comparações se sobreponham. É individual no que é mais íntimo, sem
se influenciar com as vozes alheias. Procura, contudo, a opinião. É paixão por
acessórios sem fim, pelas roupas que compra e que, invariavelmente, as
justifica com a necessidade, que bem sabemos, é dissonante da sua feliz
realidade. É dona de um discurso tão coerente e pragmático que nos delicia
ouvi-lo. É a nossa, a minha menina. Tornou-se, volvidos os instantes primários
da gestação, por isso, antes mesmo do primeiro dia da nossa convivência, o meu
orgulho. Não sei explicar, senão assim. Gosto de sabe-la preocupada por um
punhado de tantas questões. Não adormeceu no conforto que lhe coube em sorte. A
paciência cai-lhe em saco roto, diz-me, por não lhe fazer sentido. Como se
tivesse poder de decisão, escolhe tudo para ontem. Apraz-me saber que me
procura quando alguma situação a aflige ou quando o momento é feliz. Deliciam-me
as conversas sem fim, por nunca as concluirmos, que temos tantas vezes.
Daquelas que ficam sem direito a conclusão. Talvez, por força da idade que nos
separa. Não sendo uma diferença extraordinária, molda-nos alguns pontos de
vista. Nas outras questões, somos sintonia. Mas, volto ao primeiro dia. Eu
estava fora, só havia de chegar mais tarde. Assim, todo o aparato
escapou-se-me. Dispensaram-me a ansiedade de perspectivar o seu nascimento. Depois,
ganhei em dobro, quando a vi. Hoje, dezoito anos depois, tenho o discurso tão emaranhado,
que tudo me parece estranho, cada palavra que leio, depois de escrever, me soa confusa.
Dezoito anos. É a apropriação de uma liberdade que, sem saber, já existe. É o
reforço da razão e da compreensão que se suportam no feliz acontecimento de ter
direito à responsabilidade. Havemos de comemorar logo à noite, depois de um dia
cheio. Entre grande parte dos que te admiram e querem sempre presente. E, por
momentos, vais ficar envergonhada, quando fores, merecidamente, o centro de
toda a atenção. De bolo decorado, de velas da liberdade. Diferente das vezes em
que, junto à piscina, de biquíni piroso, pousavas para a máquina fotográfica,
de rosto tão divertido, de olhar ainda mais reguila. Parabéns!!! Um conjunto
inumerável de beijos. O melhor, garanto-te, ainda está para vir.
14.1.14
Em Janeiro.
Terminam
as festas, assim se cria um novo ano. Em Janeiro, o primeiro. Importa, depois
disso, o meio. O recheio do mês. Recuamos um dia. O dia que ganha relevância.
Em razão de alguém que marca. Da pessoa que faz uma sala, sem precisar de
ilusões, da que ri com fé, fazendo-se ouvir ao longe. Da que todos conhecem e
reconhecem. Da que toma o papel mais considerado, quando está entre amigos. Da
que tem simpatia, gargalhada fácil e humor buliçoso. Da que vive em família,
com a família. Da que não julga, pois, a força da diferença não se mede. Em Janeiro,
neste dia, há uma jovem mulher que merece o melhor da semana. Do mês e do ano. Merece
o mais sentido sentimento, a maior troca de afectos. Contraímos, por força das
memórias, uma vontade sôfrega de viajar no tempo. De lembrar os outros. De
lembrar as brincadeiras. As idas à praia ou à piscina. Os aniversários em
companhia. As viagens no fim-de-semana. A partilha. As máscaras, para ela alegria,
para mim um tremendo esforço. A cumplicidade de irmãos. Em Janeiro, neste dia,
faço por lhe falar quando lhe chego perto. Parabenizo-a, entre beijos e festejo.
Entre família e amigos. Bolo e velas. Apetece pegar no melhor. Guardo, por ora,
o meu melhor discurso. Será entregue. Parabéns.
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