3.7.14

O objecto perdido.

Fim do dia. Sou visita. Gente a chegar e estacionar. Outros a partir. Na rua que não tem saída. Os portões são os números. Os jardins que espreitam ensaiam nas mentes distraídas um paraíso. Quebra-se o silêncio e soa um clamor sem fim. Foi levada em braços um tanto de vezes. Desgrenhada e de voz gritada. A roupa denunciava desleixo de quem havia de ser surpreendida na cama de quem pagou. Naquele bairro não é típico esse rancho aglomerado de desavindos actos. Tanto quanto sei. Preferem calar os desgostos, mantê-los da porta para dentro. Não se amarrota o tecido, não se desvia a gravata, não se ousa pensar, sequer, em tocar nas jóias penduradas num corpo que desliga, por não ser próprio. O outro corpo, carregado como um animal de caça, praticamente desnudado foi a excepção. Pendurada nos braços de quem a chamou. A magreza num todo mistifório. Berros de quem foi, uma vez mais, posta à margem. Naquele bairro, tanto quanto conheço, não se expõe. Compõe-se. A bronca é transversal. Lamento a desumanização autónoma ou induzida. Lastimo a carência de quem deixou o corpo e a alma por mãos alheias.

Sem comentários:

Enviar um comentário