8.6.15

A razão da minha avó.

O meu telemóvel marca a pausa para o almoço. Depois, a sala cheia e as mesas tipicamente dispersas. Pessoas e pessoas. Lugares ocupados. Ainda outros por ocupar. O meu telemóvel marca a hora. Chegamos, eu e ela. Ficamos numa das mesas próximas da janela grande porque, garante ela, a luz chega e não precisamos de falsificar nada. Ri-me. Ela continuou, segura nas suas verdades de ocasião, terminando convicta de que qualquer arquitecto lhe daria razão. Voltei a rir-me. E dei-lhe pontuação. A luz natural faz toda a diferença. Logo aqui, num espaço montado com materiais tão escuros. Nisto, chegou ele. Vem de cabelo rapado e blusa às riscas. Nunca deixou de ser miúdo. E ainda bem. Falta o quarto elemento. A conversa não tem fim. Ele conta que viu um tipo a correr junto ao rio enfiado num biquíni. Não viu nada, que as interpretações dele ficam sempre à margem, o suficiente para lhe conhecermos as entrelinhas. Mas rimos, de resto, como sempre fazemos quando estamos juntos. Chega, então, o quarto elemento. Atrasada como é regra. De óculos escuros e cabelo desarrumado, cumprimenta-nos enquanto lamenta o atraso e deseja uma cidade com menos carros. Que a culpa é sempre do trânsito. A arquitectura aparece, de novo, na conversa. Elas acham que as escadas estão perfeitamente entrosadas no espaço. E a janela grande faz toda a diferença. Lembram-nos para não esquecermos. Senão, imagina, era pior do que estar horas sem fim à espera do metro. Escuro, escuro. Rimo-nos da comparação delas. Diz-me a amiga atrasada que nos rimos porque não andamos frequentemente de metro. É verdade. Não ando. Por questões geograficamente justificáveis. Mas reconheço-lhe todo o mérito. Nem tens ar para isso, brincou. Deve ser verdade. Numa das últimas vezes em que andei de metro, depois de um homem nos pedir, de forma pouco cordial, uns trocos e de lhe ter negado, virou-se para mim e, irónico, rematou: Tens mesmo ar de quem não tem nenhum. Já dizia a minha avó: Sê o que quiseres, mas sê como aprendeste.

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