O
meu telemóvel marca a pausa para o almoço. Depois, a sala cheia e as mesas tipicamente
dispersas. Pessoas e pessoas. Lugares ocupados. Ainda outros por ocupar. O meu
telemóvel marca a hora. Chegamos, eu e ela. Ficamos numa das mesas próximas da
janela grande porque, garante ela, a luz chega e não precisamos de falsificar
nada. Ri-me. Ela continuou, segura nas suas verdades de ocasião, terminando
convicta de que qualquer arquitecto lhe daria razão. Voltei a rir-me. E dei-lhe
pontuação. A luz natural faz toda a diferença. Logo aqui, num espaço montado
com materiais tão escuros. Nisto, chegou ele. Vem de cabelo rapado e blusa às
riscas. Nunca deixou de ser miúdo. E ainda bem. Falta o quarto elemento. A
conversa não tem fim. Ele conta que viu um tipo a correr junto ao rio enfiado
num biquíni. Não viu nada, que as interpretações dele ficam sempre à margem, o
suficiente para lhe conhecermos as entrelinhas. Mas rimos, de resto, como
sempre fazemos quando estamos juntos. Chega, então, o quarto elemento. Atrasada
como é regra. De óculos escuros e cabelo desarrumado, cumprimenta-nos enquanto
lamenta o atraso e deseja uma cidade com menos carros. Que a culpa é sempre do
trânsito. A arquitectura aparece, de novo, na conversa. Elas acham que as
escadas estão perfeitamente entrosadas no espaço. E a janela grande faz toda a
diferença. Lembram-nos para não esquecermos. Senão, imagina, era pior do que
estar horas sem fim à espera do metro. Escuro, escuro. Rimo-nos da comparação
delas. Diz-me a amiga atrasada que nos rimos porque não andamos frequentemente
de metro. É verdade. Não ando. Por questões geograficamente justificáveis. Mas
reconheço-lhe todo o mérito. Nem tens ar para isso, brincou. Deve ser verdade.
Numa das últimas vezes em que andei de metro, depois de um homem nos pedir, de
forma pouco cordial, uns trocos e de lhe ter negado, virou-se para mim e, irónico,
rematou: Tens mesmo ar de quem não tem nenhum. Já dizia a minha avó: Sê o que
quiseres, mas sê como aprendeste.
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