4.6.15

(Silêncio) O que é não desaparece.

Depois de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si. Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio. Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção. Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso de te ouvir para te entender. E isso eu sei.

2 comentários:

  1. O silêncio. Sem dúvida, o maior teste à proximidade/cumplicidade entre dois seres na maioria dos casos. Enquanto se está a conhecer o outro, o silêncio pode ser muitas vezes confundido com falta de interesse, criando desconforto nas pessoas em causa. Quanto a mim, um grandessíssimo erro.
    Nunca tive medo do silêncio (talvez por isso sempre ter gostado de viver sozinha). No entanto, não por oposição mas sim como complemento, também posso ser uma tagarelas de primeira. E não julgo o êxito ou o fracasso de um encontro, seja de que ordem for, pela existência de um menor ou maior tempo de silêncio. Há tantos outros pormenores, por vezes deliciosos, que nos levam a entender se nos iremos dar bem com a pessoa que estamos a descobrir, que o silêncio pode muito bem (e tantas vezes) ser secundário.

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    1. Mam'Zelle Moustache,
      É assim mesmo. Excelente resumo. O silêncio, vezes sem conta, é maltratado, precisamente, pela mensagem que passa, tantas vezes deturpada.
      Eu sou fã do silêncio. Nunca, por oposição à conversa e à partilha com a outra pessoa, mas sempre como parte integrante de uma relação activa, diversificada e confortável.
      Talvez por não ser fácil encontrar quem compreenda o silêncio e se permita partilhá-lo, o valorize. Faz-me mesmo todo o sentido. Felizes o que encontram os pormenores e não se esquecem que a cumplicidade e a verdade vivem em perfeita harmonia com o silêncio :)

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