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7.7.15

Aperfeiçoar até ao extremo.

As saudades de ver e conviver, ao invés, de ficar por telefonemas rápidos ou mensagens escritas, são o mote. É verão, assim chega o pretexto para marcar vontades pendentes. Nesta altura, acontece as agendas dilatarem. Aceitei o convite, avançamos numa sugestão de última hora. Grandes janelas, parece um aquário. À volta, fora as janelas, um ar tão americano que parece estranho. As cores, o chão, os móveis e os acessórios. O empregado prestável, num português compreensível. Entre a carta e o pedido, vamos conversando. Pergunta por novidades. Nenhuma, pois já as havíamos contado. Sem que lhe provocasse, diz-me que não vai casar. Nem ontem, nem nunca. Por pudor, adiei a questão seguinte. Mas desconfio que o seu feitio dedicado, a sua postura rude e a consciência no lugar certo, a afastam de relações duradouras. De, eventualmente, relações que justifiquem o casamento. Têm medo, diz-me enquanto ri. E, nessa lógica de raciocínio, é bem provável que seja verdade. Não é fácil, numa sociedade aquário, viver fora de órbita. Ser uma mulher convicta e actual, em detrimento, de parecer uma mulher normal. Quer usar saltos altos, uma LV na mão, o cabelo arranjado, lábios encarnados e uma saia ao mesmo tempo que exige sexo com prazer e solta um foda-se. Ainda, se lhe apetecer, quer calçar umas sandálias, levar uma alcofa ao ombro e uns calções daquela loja das massas, enquanto bebe um gin ao fim da tarde. Não te estragues, boa amiga. Vai levando com gosto, que não te cansas. Aquários há, que têm espécies de alto requinte.

29.6.15

Amor que substitui de vez o que era feito por provisão.

Uma história curta. Uma estória que tem tanto interesse como todas as outras. Uma conversa no meio do Alentejo. Uma casa, gente boa. Tirei uma fotografia ao sol a ameaçar pôr-se, depois de uma tarde entre conversas animadas, risadas leves, banhos na piscina e o gozo de deixar-me ficar ao sol. À frente dele, deste sol que deixa uma luz do caraças, uma casa comprida, típica como o desenho da região. Adiei a vontade de mostrá-la ao mundo. Perdeu o Instagram. Ganhámos nós, perfeitos convivas em fim-de-semana, que o vimos sem filtros. Na varanda larga, estava eu de costas para a casa, com as janelas escancaradas, porque o calor não perdoou. Nisto, oiço alguém perguntar-me o que ainda fazia ali. Já não procurava o melhor lugar para apanhar rede, pois por vencido me dei. Estou a pensar, foi a resposta. Não estava nada, que não me ocupava naquele silêncio, senão a olhar. A ver a paisagem a acontecer. Um ou outro carro, raras vezes, lá ao fundo a passar a caminho da praia. Levantei-me e juntei-me à amiga que estava de pé. Sem que lhe perguntasse nada, falou do casamento. Do seu casamento. Teremos casório lá adiante. Emoção na cara. Os olhos brilhantes, um sorriso nos lábios. Deve ser a cara da expectativa. Com esta cara, falava-me dos preparativos, do vestido, do horário da cerimónia. A avó, continuou, chorou quando a viu pela primeira vez de branco. Só percebo o casamento, se for assim, emotivamente vivido. Quando os protagonistas acreditam no amor. E deixam-se acreditar no amor que nunca acaba. Não desistem, mesmo que não o mostrem aos outros. Mesmo que vozes soem mais alto alvitrando putativas dúvidas. Vi-a a passar as mãos pelos olhos, para que não caísse qualquer lágrima. Ouvi-a num relato quase ininterrupto. E acreditei. Naquele amor, naquele casal. Mesmo que ainda não tenha em mim o sentido lato da definição irrevogável do amor que quer casamento, mesmo que ainda procure provas. O que vem a seguir, será sempre melhor. O noivo e outra amiga chegam à varanda, ela fotografa-me e temos verão numa fotografia. Que seja um amor gatuno, meus bons amigos, é o que me permito dizer-vos. Que vos tenha lesado por muito e bom tempo.