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26.6.14

Alheios à pressão.

Na norma acontecem, felizmente, excepções. Desconfio de coincidências. Algumas, para não ser tentador generalizar. Factos há que nos parecem tão palpáveis e irrevogáveis que, jamais, lhes colocamos no eixo das coincidências. Ironia, quando, precisamente, no seguimento do primeiro jogo de Portugal neste mundial de futebol, ou seja, frente à Alemanha, me chegaram fotografias de outros tempos. Coincidências à margem, chegaram-me, justamente, da Alemanha. Minutos depois do desditoso resultado. Em dia da derradeira oportunidade, lembro-me disto. Tenho, por esse mundo, amigos espalhados. No caso, amizade de infância, de corpos delgados e travessos nas mais ímpares e desalinhadas aventuras. As saborosas descobertas de então. Gaiatos de linguagens aprendidas no minuto. O português e o alemão misturados para forçar o discurso, comunicação. Funcionava para a argumentação que íamos experimentando entre divertimento. Entendíamo-nos na perfeição. A cada vinda a Portugal, estávamos juntos. Relação que já vinha de trás, dos nossos ascendentes que, de forma tão natural, mantivemos. Devemos ter, em momentos vários, tirado fotografias. Naquele dia, chegaram-me duas. Talvez, em jeito de palmada nas costas, da desdita compreendida. Digo, porque desconfio de coincidências. Gostei de recebê-las. Numa, de máscara a rigor, o tormento de me vestir de outrem. Na outra, todos juntos na piscina lá de casa. O critério tem desvios. Tenho alguma dificuldade em olhar as coincidências. Mesmo quando não uso da generalização, desconfio. O que acabo de escrever serve-se, em pontos concretos, da ironia. Gostei de recordar. Gosto de ter amigos com memória. E, já agora, de me saber amigo de gente com compaixão futebolística.

23.6.14

Selecção de um país em competição.

Portugal foi, durante algumas horas, uma bandeira desenhada, a esvoaçar pela força dos braços de alguém. Foi reunião numa praça a céu aberto, num bar de típicos petiscos, na casa do amigo que recebe sempre bem, ainda, na rua que até agora lembra a azáfama dos Santos Populares, que cheira a sardinhas assadas, que tem vendedores ambulantes e que esconde, atrás das janelas e portas tão características, vidas. Porventura, vidas que, durante as mesmas horas, solitárias ou não, viveram a esperança de Portugal, país em competição. Ouvem-se, a arrepio dos ecrãs gigantes, das televisões datadas ou dos ecrãs de nova geração, vozes que não se cansam, gemidos e figuras a reagirem à ginástica do desassossego de um jogo. Abrem excepção no aproximar da baliza. Em que o silêncio quase que toma corpo. Ouve-se, logo depois, um esgar de decepção. No entremeio da dedicação, houve momentos de explosão. Os dois golos da comemoração. Enganou-se a alma até ao instante final. Apitou e sustentou-se um empate. Agora, relaxa-se o corpo. A boca entreaberta fecha-se. A mão que tapa os lábios deixa-se cair. Os braços cruzam-se por não lhes saber posição. Os olhos fecham-se demoradamente. As bandeiras perdem a dança na medida das forças daqueles braços. Respira-se fundo. De corpo pesado, seguem a sua vida. Portugal foi, pelas mãos da competição, união de pessoas e sensações. Guardas, a seguir, a camisola alusiva ou o todo da classe de adereços. Até ao próximo jogo. Para remate final, não lhes despendi demasiadas expectativas. É um Mundial, fomos apurados. Desapropriaram-se, contudo, da acção e reacção. Portugal fora, durante algumas horas, uma sombra. E um abanar de cabeça, de negação. Até, bem sabemos, à prova seguinte. Portugal, pais em competição.