Na
norma acontecem, felizmente, excepções. Desconfio de coincidências. Algumas, para
não ser tentador generalizar. Factos há que nos parecem tão palpáveis e
irrevogáveis que, jamais, lhes colocamos no eixo das coincidências. Ironia, quando,
precisamente, no seguimento do primeiro jogo de Portugal neste mundial de
futebol, ou seja, frente à Alemanha, me chegaram fotografias de outros tempos.
Coincidências à margem, chegaram-me, justamente, da Alemanha. Minutos depois do
desditoso resultado. Em dia da derradeira oportunidade, lembro-me disto. Tenho,
por esse mundo, amigos espalhados. No caso, amizade de infância, de corpos
delgados e travessos nas mais ímpares e desalinhadas aventuras. As saborosas
descobertas de então. Gaiatos de linguagens aprendidas no minuto. O português e
o alemão misturados para forçar o discurso, comunicação. Funcionava para a
argumentação que íamos experimentando entre divertimento. Entendíamo-nos na
perfeição. A cada vinda a Portugal, estávamos juntos. Relação que já vinha de
trás, dos nossos ascendentes que, de forma tão natural, mantivemos. Devemos
ter, em momentos vários, tirado fotografias. Naquele dia, chegaram-me duas.
Talvez, em jeito de palmada nas costas, da desdita compreendida. Digo, porque
desconfio de coincidências. Gostei de recebê-las. Numa, de máscara a rigor, o
tormento de me vestir de outrem. Na outra, todos juntos na piscina lá de casa.
O critério tem desvios. Tenho alguma dificuldade em olhar as coincidências.
Mesmo quando não uso da generalização, desconfio. O que acabo de escrever
serve-se, em pontos concretos, da ironia. Gostei de recordar. Gosto de ter
amigos com memória. E, já agora, de me saber amigo de gente com compaixão
futebolística.
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26.6.14
23.6.14
Selecção de um país em competição.
Portugal
foi, durante algumas horas, uma bandeira desenhada, a esvoaçar pela força dos
braços de alguém. Foi reunião numa praça a céu aberto, num bar de típicos
petiscos, na casa do amigo que recebe sempre bem, ainda, na rua que até agora
lembra a azáfama dos Santos Populares, que cheira a sardinhas assadas, que tem
vendedores ambulantes e que esconde, atrás das janelas e portas tão
características, vidas. Porventura, vidas que, durante as mesmas horas, solitárias
ou não, viveram a esperança de Portugal, país em competição. Ouvem-se, a
arrepio dos ecrãs gigantes, das televisões datadas ou dos ecrãs de nova
geração, vozes que não se cansam, gemidos e figuras a reagirem à ginástica do
desassossego de um jogo. Abrem excepção no aproximar da baliza. Em que o
silêncio quase que toma corpo. Ouve-se, logo depois, um esgar de decepção. No
entremeio da dedicação, houve momentos de explosão. Os dois golos da
comemoração. Enganou-se a alma até ao instante final. Apitou e sustentou-se um
empate. Agora, relaxa-se o corpo. A boca entreaberta fecha-se. A mão que tapa
os lábios deixa-se cair. Os braços cruzam-se por não lhes saber posição. Os
olhos fecham-se demoradamente. As bandeiras perdem a dança na medida das forças
daqueles braços. Respira-se fundo. De corpo pesado, seguem a sua vida. Portugal
foi, pelas mãos da competição, união de pessoas e sensações. Guardas, a seguir,
a camisola alusiva ou o todo da classe de adereços. Até ao próximo jogo. Para
remate final, não lhes despendi demasiadas expectativas. É um Mundial, fomos apurados.
Desapropriaram-se, contudo, da acção e reacção. Portugal fora, durante algumas
horas, uma sombra. E um abanar de cabeça, de negação. Até, bem sabemos, à prova
seguinte. Portugal, pais em competição.
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