23.6.14

Selecção de um país em competição.

Portugal foi, durante algumas horas, uma bandeira desenhada, a esvoaçar pela força dos braços de alguém. Foi reunião numa praça a céu aberto, num bar de típicos petiscos, na casa do amigo que recebe sempre bem, ainda, na rua que até agora lembra a azáfama dos Santos Populares, que cheira a sardinhas assadas, que tem vendedores ambulantes e que esconde, atrás das janelas e portas tão características, vidas. Porventura, vidas que, durante as mesmas horas, solitárias ou não, viveram a esperança de Portugal, país em competição. Ouvem-se, a arrepio dos ecrãs gigantes, das televisões datadas ou dos ecrãs de nova geração, vozes que não se cansam, gemidos e figuras a reagirem à ginástica do desassossego de um jogo. Abrem excepção no aproximar da baliza. Em que o silêncio quase que toma corpo. Ouve-se, logo depois, um esgar de decepção. No entremeio da dedicação, houve momentos de explosão. Os dois golos da comemoração. Enganou-se a alma até ao instante final. Apitou e sustentou-se um empate. Agora, relaxa-se o corpo. A boca entreaberta fecha-se. A mão que tapa os lábios deixa-se cair. Os braços cruzam-se por não lhes saber posição. Os olhos fecham-se demoradamente. As bandeiras perdem a dança na medida das forças daqueles braços. Respira-se fundo. De corpo pesado, seguem a sua vida. Portugal foi, pelas mãos da competição, união de pessoas e sensações. Guardas, a seguir, a camisola alusiva ou o todo da classe de adereços. Até ao próximo jogo. Para remate final, não lhes despendi demasiadas expectativas. É um Mundial, fomos apurados. Desapropriaram-se, contudo, da acção e reacção. Portugal fora, durante algumas horas, uma sombra. E um abanar de cabeça, de negação. Até, bem sabemos, à prova seguinte. Portugal, pais em competição.

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