As
redes sociais têm o dobro dos propósitos. São uma montra de egos aumentados,
por razão da idolatrada acção munida de um infindável número de likes a chamar a atenção dos mais
distraídos e revela, na mesma escala, as fotografias e os enrugados textos
curtos, de pequeninos e diminuídos pela coçada auto-estima. Do outro lado,
estão as ofertas irrepetíveis. As que nos merecem mais do que um like desinteressado, que marca apenas,
tão miseravelmente, a nossa presença. Acontece, que se mostram, de privacidade
honrada, os momentos que nos reportam para vivências reais e distintas. Frases
que fogem aos chavões retirados de um qualquer site manhoso. Colocam-se fotografias
de escolha penalizada e personalizada, ao invés de um shot lunático de imagens fabricadas. Temos o poder, usamo-lo
conforme a consequência dos nossos olhos. Estava, há uns tempos, a rever uma
fotografia no Facebook. A fotografia pertence a uma amiga. Viajada, de
conhecimentos importados. A fotografia, despida de um sem números de filtros da
moda, distancia-se da afamada e multiplamente ampliada na rede, selfie. Fosse a minha avó sabe-la
existir e arranjava definição, para a dita da selfie, chamando-lhe de auto-retrato de saída rápida sem pausa para
as habituais demoras da maquilhagem da fotografia. No flash certeiro dessa minha amiga, de costas, vê-se a silhueta
definida, resguardada subtilmente por um conjunto de verão. Nos pés, umas
sandálias cruzadas, simples. As calças fluidas, gritavam cores que combinavam
com a tela que se encontrava à sua frente. Meia escondida pela sua própria
sombra. Um quadro datado, de traços vincados. A legenda, diminuída, avançava os
nomes da obra e do autor. Soberbo. Tal e qual o museu que as acolheu. À tela,
para a exposição e à minha amiga para uns largos minutos de pura força
cultural. Transforma-se a plataforma irreal numa realidade inteligente e
sensata. E não precisamos de procurar um espelho rafeiro de uma casa de banho
de um centro comercial. Era mudar. Eu julgo que era mudar.