Desde
aquela noite, que a recordo de forma diferente, toleravelmente diferente. Não a
conheci novamente, conheci-a um pouco mais. Fiz por estar com ela. Ela percebeu
e reconheceu. Disse-mo. Hoje volto a lembrá-la. Estava impecavelmente vestida
no centro da pista, ornada a rigor, como sempre, para o momento. O negro que
envergava no tronco, brilhando no lugar certo. Os saltos elevavam, ainda mais, a sua beleza e
elegância reais. Entre a multidão que nos rodeava, ela destacava-se, de forma
natural, sem precisar de forçar a sua presença. Lembro cada gesto, cada
movimento, cada sorriso e olhar. Movia-se como guardava vê-la mover-se. Dançava
ao som da música que, ao fundo, na cabina, o DJ colocava. Cada palavra que
trocamos não esqueci. Os sussurros e as respirações compassados que trocamos,
igualmente registados. O que me contou, dizia, em jeito de segredo. E ela
dançou. E ela moveu-se por ali. E, agora, volto a lembrá-la. Volto a vê-la. E
apetece-me, dizer-lhe, uma vez mais, que ela não imagina nem reconhece o que é.
Apetece-me recordar-lhe que a sua beleza, postura e presença ultrapassam, em
larga escala, o que ela vê. Porque ela é muito mais do que mostra e do que vê.
Porque, ao contrário, do que acredita, as que a acompanham ficam muito aquém,
quando comparadas com ela. Porque ela é beleza e conteúdo. E ela dançou. E ela
moveu-se como jamais me esqueceria. E fiquei a vê-la dançar. E perdi-me a
assistir ao que, a dado momento, seria um verdadeiro espectáculo, sem ensaio ou
preparação. E ela dançou. E ela moveu-se como ela. E eu, neste preciso momento,
enquanto recordo o momento e o movimento, sinto impreterivelmente o que senti
ali.
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