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13.8.14

Manifestação conforme o tremor da vontade.

Ao redor, pessoas com vibrações felizes, mergulhos e salpicos na água, areia e terra, árvores. Os ambientes adversos - se quisermos com esta definição ressalvar o hábito normativo de um qualquer lugar onde uma instalação denominada arte se expõe. Seja peça, seja pessoa. – são um trocadilho certeiro no ensejo de liberdade. Uma respiração. Depois outra. Desordenadas. Desencontradas no acerto. Uma atiçava. A outra era a resposta imediata. Assim, com tão mais sentido. Um ventre despido e dançador, porventura, amador. Por tudo, denunciando uma irracional concupiscência. De parte a parte. Findo o espectáculo, aplaudiu. De seguida, fecham-se as portas da intimidade. Não importa, senão a consciência e a vontade. Não sabemos os nomes, nem o sexo, sequer, a orientação. Fica-nos a demonstração e o sentimento embrulhados numa acção. Naquela acção.

3.1.14

Feitio do exercício.

Fingi dançar kizomba, ao ritmo de uma repetida canção, porque sim. Vendi a minha postura em duplicado. Primeiro, dancei. Vale por si. Segundo, ouvi canções da moda. Da moda das massas da periferia. Ela disse-me: Estás dedicado. Não balbuciei, sequer. Não me faltaram argumentos. Preferi, antes, não lembrar outros tempos. Ocasiões em que cantei. Já cantei em público. Já cantei por aí. O silêncio é o suporte da clivagem. Ela, lembrando-se, riu comigo. A graça está na cumplicidade. Nas relações. Na dança, também.

8.10.13

A menina quer dançar.

Há algum tempo, talvez dois anos, convidaram-me para dançar. Ter aulas de dança. Fazer par com ela, mais precisamente. A surpresa e assombro, consequência do inóspito convite, ter-se-ão notado no meu rosto. Sorri-lhe. E declinei. Antecipei, qual olheiro, o meu mau jeito para a prática. Não acreditou e insistiu. O propósito, continuava, era esse mesmo, aprender. Voltei a negar competências. Tornou o convite. O estilo em concreto piorava a perspectiva de umas aulas bem sucedidas. Afastando o convite, sugeri-lhe outro par. Não. És tu quem eu quero. Obviamente, terminamos o assunto, afastando, tanto quanto possível, amavelmente, o convite. Amigos como sempre. Até hoje. Feliz, hoje, também por não ter embarcado na aventura de deslizar pista fora, à vista de um qualquer professor, afamado por sinal. Hoje, estão separados. Não foi a dança. Passou pela dança, dizem.

6.8.13

Move-se como ela.

Desde aquela noite, que a recordo de forma diferente, toleravelmente diferente. Não a conheci novamente, conheci-a um pouco mais. Fiz por estar com ela. Ela percebeu e reconheceu. Disse-mo. Hoje volto a lembrá-la. Estava impecavelmente vestida no centro da pista, ornada a rigor, como sempre, para o momento. O negro que envergava no tronco, brilhando no lugar certo. Os  saltos elevavam, ainda mais, a sua beleza e elegância reais. Entre a multidão que nos rodeava, ela destacava-se, de forma natural, sem precisar de forçar a sua presença. Lembro cada gesto, cada movimento, cada sorriso e olhar. Movia-se como guardava vê-la mover-se. Dançava ao som da música que, ao fundo, na cabina, o DJ colocava. Cada palavra que trocamos não esqueci. Os sussurros e as respirações compassados que trocamos, igualmente registados. O que me contou, dizia, em jeito de segredo. E ela dançou. E ela moveu-se por ali. E, agora, volto a lembrá-la. Volto a vê-la. E apetece-me, dizer-lhe, uma vez mais, que ela não imagina nem reconhece o que é. Apetece-me recordar-lhe que a sua beleza, postura e presença ultrapassam, em larga escala, o que ela vê. Porque ela é muito mais do que mostra e do que vê. Porque, ao contrário, do que acredita, as que a acompanham ficam muito aquém, quando comparadas com ela. Porque ela é beleza e conteúdo. E ela dançou. E ela moveu-se como jamais me esqueceria. E fiquei a vê-la dançar. E perdi-me a assistir ao que, a dado momento, seria um verdadeiro espectáculo, sem ensaio ou preparação. E ela dançou. E ela moveu-se como ela. E eu, neste preciso momento, enquanto recordo o momento e o movimento, sinto impreterivelmente o que senti ali.