10.10.13

‘Com um vestido preto (nunca) me comprometo’.

A festa viria a propósito, não fosse a ocasião oca, fraca. Uma autêntica fachada. Deixo, inocente, a burguesia. Fujo do termo “pequena burguesia”. Em abono da verdade, vezes há em que não recuso. Em que não perco a oportunidade de vislumbrar, tanto quanto possível, à margem, todo um circo. Não dos horrores. Das aparências. Um círculo de falsos cumprimentos e de rijos festejos. Aproveitam ao máximo. Pelo menos, por ali, vivem-no com franca verdade. Há espaço para tudo. Para todos. Mas, inevitavelmente, surgem os que importam. Os que diferem. Os que estão vivem e mostram-se imunes à perturbada vaidade. Nem tudo é mau. Ninguém é, por todo, mau. Entre todos, aquela que nunca se compromete e dá sentido à sala. A mesa ganha vida e estatuto digno. Longe de ser burguesa. De vestido longo, como exige o horário. De cabelo solto e sandálias altas, espreitando, aos poucos. Aos 50 anos assumidos, é despretensiosa. Elegante, digna nos movimentos. De sorriso certo e conversa simples e agradável. Chama a atenção, sem pedir. Sabe-o, contudo. A pista de dança ilumina-se, quando, entre convites, se permite dançar. A elegância repete-se. Não tem idade. Gira, por ali, ao som e ritmo de um clássico. E as atenções, repetidamente, estão nela. Enquanto consente que a vejam. Depois, perde-se pela pista e ninguém a vê. Minutos passados com fulgor, regressa. Volta à sala, à pista. Volta do quarto de banho. Onde, soube mais tarde, entre malas, vestidos e sapatos, se trocou e retocou. Agora, já na sala, olhada é uma nova pessoa. O vestido, antes longo e de tons claros é, por esta altura, negro e mais curto. Leve, segura numa rosa branca. Das muitas rosas que por ali estavam. Colocou-a estrategicamente. E revoluciona. Muda tudo, menos a atenção alheia. Hoje, alguns dias sumidos, ainda gabam a postura e o vestido. Aos 50 anos, garantiu-me, recorrendo à velha expressão, “Com um vestido preto nunca me comprometo. Mesmo que o vestido tenha 27 anos”. Vintage, pensei. Está na moda. É uma senhora.

6 comentários:

  1. Adoro essa frase da Ivone Silva, do mesmo modo como adorava ver aquela grande SENHORA a actuar.....
    Adoptei essa máxima, aliás adoro vestidos...e o preto cai sempre bem!
    Gosto de pessoas "elegantes", cuidadas, ( isto é quase que ao nível da definição de pessoa bonita(feliz)....seja em que idade for!
    beijinhos

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    1. É uma expressão que ficou de tal forma enraizada que, duvido, seja esquecida. Todos nos lembramos do desempenho da célebre actriz.
      Esta é, entre outras, uma excelente definição de pessoa bonita. Que é bonita, sem extravasar. Simpatizo muito com ela.
      Beijinhos

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    2. Mas o extravasar muitas vezes leva à perda do encanto.....gosto de pessoas bonitas e simples.....
      é na simplicidade da elegância ( parecem ser coisas que não se entrelaçam, mas são na realidade "perfeitas" quando juntas...
      Digo eu... que sou apenas alguém por aí ;)
      beijinhos Real

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    3. Completamente de acordo. Extravasar é mascarar, muitas vezes, o que somos efectivamente.
      E entrelaça perfeitamente. Para mim, elegância é, também, simplicidade. Aliás, é primeiro simplicidade.
      Já somos dois, então, a estar por aí ;)
      Beijinhos

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  2. a elegancia é algo que se tem ou não se tem , é como o saber estar ... mas concordo, um vestido preto é sempre uma boa escolha :)

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    1. Sim, inevitavelmente, um vestido preto não funciona como uma solução para disfarçar o que não existe, aquilo que não temos. Contudo, sendo uma expressão sobejamente conhecida, não resisti sorrir-lhe quando me contava.
      Estou totalmente de acordo, elegância é parte, não é acessório.
      Abraço.

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