A
festa viria a propósito, não fosse a ocasião oca, fraca. Uma autêntica fachada.
Deixo, inocente, a burguesia. Fujo do termo “pequena burguesia”. Em abono da
verdade, vezes há em que não recuso. Em que não perco a oportunidade de
vislumbrar, tanto quanto possível, à margem, todo um circo. Não dos horrores.
Das aparências. Um círculo de falsos cumprimentos e de rijos festejos.
Aproveitam ao máximo. Pelo menos, por ali, vivem-no com franca verdade. Há
espaço para tudo. Para todos. Mas, inevitavelmente, surgem os que importam. Os
que diferem. Os que estão vivem e mostram-se imunes à perturbada vaidade. Nem
tudo é mau. Ninguém é, por todo, mau. Entre todos, aquela que nunca se
compromete e dá sentido à sala. A mesa ganha vida e estatuto digno. Longe de
ser burguesa. De vestido longo, como exige o horário. De cabelo solto e
sandálias altas, espreitando, aos poucos. Aos 50 anos assumidos, é despretensiosa.
Elegante, digna nos movimentos. De sorriso certo e conversa simples e
agradável. Chama a atenção, sem pedir. Sabe-o, contudo. A pista de dança
ilumina-se, quando, entre convites, se permite dançar. A elegância repete-se.
Não tem idade. Gira, por ali, ao som e ritmo de um clássico. E as atenções,
repetidamente, estão nela. Enquanto consente que a vejam. Depois, perde-se pela
pista e ninguém a vê. Minutos passados com fulgor, regressa. Volta à sala, à
pista. Volta do quarto de banho. Onde, soube mais tarde, entre malas, vestidos
e sapatos, se trocou e retocou. Agora, já na sala, olhada é uma nova pessoa. O
vestido, antes longo e de tons claros é, por esta altura, negro e mais curto.
Leve, segura numa rosa branca. Das muitas rosas que por ali estavam. Colocou-a
estrategicamente. E revoluciona. Muda tudo, menos a atenção alheia. Hoje,
alguns dias sumidos, ainda gabam a postura e o vestido. Aos 50 anos,
garantiu-me, recorrendo à velha expressão, “Com um vestido preto nunca me
comprometo. Mesmo que o vestido tenha 27 anos”. Vintage, pensei. Está na moda.
É uma senhora.