Ora,
vejam lá. A senhora lavadeira nas horas que deveriam ser vagas e cozinheira
naquele restaurante a tempo inteiro lê nas horas vazias. Ora, fechem as bocas
que o espanto ainda vem a galope. Que não lê as gordas do jornal genérico nem esmiúça
as fotografias da revista semanal cujo objectivo é saber da vida alheia. A
senhora, de cabelo aloirado, com as raízes a gritar, de avental aos quadrados.
Aqui azul, ali branco. Aqui azul, ali branco. À cinta, uma tira de tecido florido.
Adelgaça a mesma e faz lembrar a primavera. Põe sobre os ombros, para compor a
vestimenta, um casaco de malha. Azul silvestre, avançou. Fala com pressa, a
língua não se atrapalha e, se for o caso, ainda trauteia umas canções de
Roberto Carlos ou da Dina. Prefere o cancioneiro português e brasileiro, ao
invés, das desculpas que Bieber vai gritando em cada esquina. Conhece o pequeno
do outro lado, porque a neta ouve a despropósito todo o santo dia. Um ramo de
salsa na mão, viçoso e airoso. A mão esquerda leva-a ao brinco que não quer
guardar o lugar. Sem que fora preciso perguntar, não guardou a palavra e deixou
passar que é dona do seu nariz, vive ali há tanto que já olvidou e com o seu
homem se casou. Teve dois filhos e um emprestado, comprou o vestido com o
dinheiro que ganhou numa casa de fado. Sonhou ser professora de meninos
pequenos, perdeu a sorte e ganhou o palato apurado. Com o casamento, veio o
restaurante, foi a menina do balcão, serviu às mesas até ao dia em que a
cozinha lhe recheou o coração. Hoje é mãe e avó, ri com gosto e fé, põe as mãos
na anca e afinca o pé. Quando a noite já vai perdida, encosta a cabeça no
travesseiro alto e lê a companhia de cabeceira. O marido já dorme, ela lê Mario
Vargas Llosa. Conheceu-o aquando da atribuição do prémio Nobel. Daqui a pouco é
manhã. O sono sumiu-se num nada, há gente para cuidar, roupa para lavar e
engomar e um restaurante para comandar. Ora, vejam só. A cozinheira de mão
cheia tem na arte a compreensão. Fá-lo tão bem, que gere o tempo de forma a ler
depois do serão.
O google é um must!!
ResponderEliminarsenão vejamos o que Mario vargas diz...e eu te aplico!!
Literatura
««No meu caso, a literatura é uma espécie de vingança. É algo que me dá aquilo que a vida real não me pode dar - todas as aventuras, todo o sofrimento. Todas as experiências que eu só posso viver na na imaginação, a literatura completa-as.»»
So true....
beijo :)
Entas,
EliminarDesde já, agradecer-te a tua lembrança e a sabedoria do Google. ;) Que, admito, desconhecia essas palavras deste autor.
Tão verdade! E que ninguém se engane ou esqueça - A literatura é uma forte arma. Mesmo que te permita vingar. De quem for, do que for.
Esta senhora é modesta na experiência do quotidiano, mas é riquíssima na sabedoria de escolher.
Obrigado, Entas! :)
Beijos.
Até já!