Pouso
o relógio na secretária. Ao lado, o telemóvel, o caderno onde escrevo notas,
textos ou, em estando numa de outros desafios, onde desenho. O último tem
orelhas grandes, focinho disforme e um olhar divertido. Um insano, tal qual o
aspirante a autor. Ao lado, palavras soltas sobre Lisboa. Quem lhes chegar
perto, achá-las-á desconexas. Pobres de assunto. Contidas na definição. Mas não
é verdade. Escrevia-as há tanto tempo, mas continuam a fazer sentido. Tenho uma
paixão sem fim por Lisboa. Não sou filho da terra por acaso. Um descaso feliz.
Estas palavras soltas vêm de um momento concreto. Lembro-me, sem tirar um
segundo, de descer a Avenida da Liberdade, num jeito quase imberbe. Passei por
tantas pessoas sem lhes ver a cara. Depois da entrada do cinema São Jorge,
levado pela saudade resumida num corpo electrizado, fui interceptado por uma
senhora de uma certa idade. Tinha um ar cuidado, uma mala num braço e um saco
de papel no outro. Perguntou-me onde ficava um número daquela avenida. Ajudei-a
e, antes de seguir caminho, agradeceu-me sem fim. Confidenciou que tinha
saudades da mãe, que se havia mudado para perto. Ouvir alguém daquela idade
relatar, sem vergonha, que tem tamanha saudade da ausência da mãe, é um
pretexto para um exercício do pensamento tão visceral e essencial. Continuei
caminho, desta vez mais calmo. Até encontrá-la. Estivemos num abraço apertado
tanto tempo que não tem conta. Olhou-me nos olhos e voltou a dize-lo: Estás
apetitoso. Voltámos, agora a subir a avenida. Passámos, novamente, pelo cinema São
Jorge e por tantas pessoas. Entrámos no hotel, ela ficou no bar. Quando voltei,
no meu caderno, não tinha respostas. Tinha um desenho tão bonito. Há quem se
sustente da arte. E viva como se canta no fado.
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22.4.15
11.8.14
Representar sob a respiração.
Podes
imaginar um baloiço lá ao fundo. Já não é parte do quadro. Fora noutras bravas
aventuras. Podes desenhá-lo em ferro de cor verde. Entre o novo e o agastado
leve. Incoerências dos e do que se expõe. Ao ar livre, tão liberto quanto uma
gota que cai e se permite correr e escorrer pelo e por quem com ela se cruzar.
Podes começar o desenho. Num caderno negro como o meu, de pequenas dimensões.
De folhas limpas de linhas. Despidas à procura da imaginação. Seguras pelo elástico
que envolve. Podes continuar a imaginar, agora, também, a desenhar. Escolhe o
enquadramento, alinha o que vês, entre linhas certeiras, outras enviesadas. E,
dimensões à parte, sentá-la, à que merece todos os predicados, assim te sintas
refeito, no baloiço. Dois lugares em repouso. Na sequência, fá-los andar.
Leves, como quem começa. A seguir, mais possante. E brincam num baloiço de
inventar. Até que se lembre a parar. Podes imaginar e desenhar tal e qual,
desta forma. No final, mesmo que não acredites em relações, diz-lhe que te
esforçaste. Agora, antes de fechares o teu caderno, ri-te da sensibilidade de
tudo começar na imaginação.
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