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28.10.14

Em diferido. #21

Fado em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

1.10.14

Em diferido. #19

Canta-me um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

30.7.14

Canta-me uma modinha.

Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

28.7.14

Fado em cada linha.

Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.