Fado
em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de
um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a
sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que
não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas
mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado.
Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos
graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão
portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li
algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas
outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos
conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas
pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta
vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que
desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a
cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem
mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge,
mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num
lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois,
seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta
reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.
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28.10.14
Em diferido. #21
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música,
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opiniões,
portugal,
portugueses,
sonoridade
1.10.14
Em diferido. #19
Canta-me
um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem
fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e
é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo.
Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso
de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela
impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade.
Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência
só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um
casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e
salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois
sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse
aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura,
agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a
quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de
então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior.
Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela,
tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas
carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não
tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão
aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da
época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido
de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de
então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe.
Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de
festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por
receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais
cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.
30.7.14
Canta-me uma modinha.
Destemido,
português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não
descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É
uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo,
tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros
tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter
vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar
tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação,
é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de
cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e
sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na
televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de
vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única
que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a
contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente
lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele,
afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada
com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à
conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois,
que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que,
entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa,
perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um
novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela
perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela
de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato
lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão
característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de
torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.
28.7.14
Fado em cada linha.
Confunde-se
a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de
certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da
inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado
numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos
característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a
canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias.
Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos.
É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de
opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também.
Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas
conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que
se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor
e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se
fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com
poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e
usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto
alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é
sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as
restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da
arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.
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