É
uma viagem que não tem tempo, nem fim. É um risco quando nada se sabe. Subir
uns dedos, baixar uns centímetros. Manter a elegância do número certo de
botões. Jogar com as corres dos carros de linhas. Preferir a elegância de não
misturar, senão preto e branco. Há uns tempos, uma conhecida dizia-me que a
base é feita de preto e branco. Daí, partes à aventura do que te enriquece o
todo. Acessórios, tons. Adornos que passam rápido mas, enquanto existem,
envolvem a vasta exposição. E volto, inevitavelmente, aos ténis. Uma paixão sem
fim. Prefiro assim. Ao invés de aventuras sem medida. Falar do que não aprendemos,
mas que resumimos à sensação do que nos passa cada peça. Também esta volta é um
risco. E tornam as vozes – os ténis não devem,
tampouco podem ser, o calçado de um homem – Repete-se a mesma travessia sem
fim. Depois esqueces as inspirações e vives como e com o que te apetece. Mesmo
que os sapatos, por vezes, ganhem aos ténis.
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14.10.14
4.4.14
A modista.
Aproveitou
o regresso do sol. A ausência da chuva e do cinzento cerrado. Aproveitou, de
manhã cedo, o regresso do sol invadindo-lhe o ateliê, montra adentro. A luz
dando brilho e dinâmica às máquinas de costura. Os tecidos pendidos, ganharam
cores sadias e vibrantes. Ajeitou os pormenores. Os trabalhos, uns expostos,
outros guardados ou em construção. Os esboços, que lhe são do coração, tal o
amor que lhes empresta, estão na mesa de trabalho, ordenados por épocas e
clientes. As linhas, voltou a organizá-las no matizado que as une. A auto-estima,
jamais esquecida, ajudou-lhe na escolha do figurino. De costas, reparava o
teatro de que se faz a montra. De costas, repara-se, desde logo, no trio de
laços. Três laços, três. De negro pano, desenhado pelas suas mãos, criado da
imaginação. As costas despidas, de laços a embrulhar. A imaginação numa luta
pela descoberta. Também esta jovem, que se assume modista de profissão,
desafia-se, a cada dia, a descobrir-se mais e de contornos sempre diferentes. Impares.
Assume-se modista. Diz, porque é feliz e viu a felicidade brotar do rosto e das
mãos da avó, deformadas com o tempo. De pequena ficam-lhe as memórias e os moldes
que abrem caminho para a árdua tarefa de se fazer o que se gosta. Moldei os
meus planos, antes que me moldassem e atentassem. Rematou, antes da gargalhada.
Antes de receber mais uma flausina. Uma cliente que guarda o melhor do termo.
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