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26.1.15

À sua.

Conta-me histórias. Avô babado ou vizinho interessado. Avó atenta ou vizinha ternurenta. O cuidador do jardim sempre com tempo ou a senhora que criava e mantinha o lar, enquanto cuidava da casa, não deixava de jogar uma palavra. Vá lá, conta-me mais. Verdadeiras ou farsas reais. Prefiro-as mestiças. Pedir que conte mais e mais. Num tempo longe. Quando a inocência era o mote. A dúvida era simples. É mentira pegada ou verdade desenhada. Na carrinha, a cantiga era a mesma e pediam, desta vez, ao senhor condutor, que colocasse o pé no acelerador. Ou aos céus que faça sol ao invés da chuva miúda. A Dona Conceição, funcionária da organização, era paródia no meio da canção. Voltar ao lugar, à escola primária viva. O banco do jardim, momentos de recreio. Brincadeira sem fim. A tal menina mexida, julgava-se a Miss nacional. No ano seguinte, no mesmo banco verde seco, foi namoro de verdade infantil. A entrada é a mesma. O jardim está mais cuidado. Correm crianças. A velhota de negro ainda existe. Mudaram-lhe o corpo e o nome, mas vive à volta. Antes, cadeado na conversa. Agora, chapéu-de-chuva que tapa o sol de inverno. Conta-me histórias, velha de negro. Na rua, num ou noutro banco de paragem. Saudinha!

24.1.14

O sol (já) brilha.

Numa qualquer ruela de cidade distante, apequenada no terreno, bebericada de mexericos, rica em tradições e gente genuína de rumores opinados, de gente que trabalha as terras, quando não lhes roubam os terrenos e as enxadas. O verde que refulgia a direito, esconde o abandono pervertido. Sob um sol que se impõe, mas não aquece. Nessa ruela, bastam quatro cadeiras e duas mesas de esplanada jogadas, rústicas e desajustadas, acomodadas à porta corrida de uma casa que já fora conhecida como o retiro espiritual de senhores de bem que, em casa e causa próprias, deixavam as legítimas, as esposas. Por ali, para lá da porta apagada com marcas do tempo, fumavam-se cigarros e charutos. Baixavam-se calças, caídas sobre botas rudes e subiam-se saias plissadas enquanto o decote ganhava emoção. Bebiam-se vinhos e águas que ardem ao cair. A escadaria, depois do balcão maciço, convidava a um outro nível. Dizem, escutavam-se barulhos vários. Arrastavam-se. Hoje, que o sol brilha e bate neste prédio alto de janelas relevantes, que o devolve sem problemas de consciência, à porta está uma mulher com perto de trinta e seis anos, arrisco eu. Cabelo corrido e pouco escovado, as mãos escondidas nas algibeiras de um casaco quente. O rosto cansado e um sorriso tímido. Dois dedos de conversa e contou-me o que, durante décadas, por ali aconteceu. O sol fugia, nesses anos. Pedi para a fotografar, envolvida pelo prédio que me convidou a atenção. Sorriu, envergonhada. “Só se não sair daí”, da minha máquina, entenda-se. E não vai sair, garanti-lhe. Pausei, entre a conversa buliçosa, para tomar um café. No final, a mulher que toma conta, contou-me que, em tempos, naquela rua sobressaía bem mais a chuva, a chuva de quem chora sem tempo. Do que o sol, que perdia. Choravam sempre as mesmas. As que ficavam para dentro das portas, debaixo de corpos grosseiros e as que, à porta, esperavam os mesmos corpos.