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4.6.14

Conter para continuar a ter.

É um compincha de idade maior, daqueles que já perderam parte da farta cabeleira, onde os fios de cabelo que restam, já desbotaram. Junta aos olhos cansados, os óculos suspensos no nariz. Com a distância perfeita, para que, nas letras desenhadas no jornal, seja ajuda e compreensão, e para quando levantar o olhar, seja desprotecção. Para que, sem oferecer grandes desajustes, enxergue com atenção. Entre a conversa atenta e a leitura demorada do jornal, ia-me falando, divagando nos pormenores, estórias de outros tempos. Ligações de uma vida cheia às composições das reportagens de jornal. Acredita na formação dos jovens. A sina castra oportunidades. A intuição e vocação não são suficientes, contava-me com a certeza de quem fala com conhecimento de causa. Uma causa própria que, irremediavelmente, guarda dores medidas. O tempo esgota as reservas da dor. Traçou-me o perfil do que havia desejado ser. Desenhou o percurso da profissão. Do profissional. Sem que, em momento algum, houvesse experimentado, guarda a certeza de que teria sido um dos melhores. Os superiores em quantidade e qualidade também se perdem. Sofrem o prejuízo antes mesmo de tentar. Depois, bem depois, cai em desuso. Em esquecimento falado. Fica, somente, no interior guardado.

16.4.14

Impressão viva.

Ainda a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais, testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.

4.2.14

Memórias quentes. Senhoras e senhores.

Não ficamos presos à velha discussão, jamais. Somos adultos e gente de espírito livre. Razoável, pensamos sempre. Não nos centramos nas evidências. Avançamos para lá disso. Engraçado, o tema surge à mesa, à esquina, no entretanto, algumas vezes. O calor, real impulsionador das tertúlias. Das conversas até tarde, até altas horas. As mulheres, os homens. Os defeitos, as virtudes. As capacidades, as incapacidades. O talento, o desalento. O pensamento, a ausência dele. A forma, o conteúdo. Tudo. Falamos de tudo, sempre. Senhoras e senhores. Senhoras ou senhores. Todos. A todos serve os adjectivos e proposições. Não generalizamos. Definimos ainda menos. Ficamo-nos pelas evidências. Por hoje, por fim. Contrariando, ficamo-nos pelo irrevogável. Senhoras e senhores. Ambos.