Objectiva
arrefecida - Um dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me
levantar da cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão
típicas da madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses
dias, a necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão
descuidados e nada estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a
vontade. Mas, fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou
escrevendo. É um desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá
em casa. Hoje tão obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de
verdade. Lembro-me tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em
detrimento do computador. Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem
alma. Não tem mais de duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da
pele de quem escreve. Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes,
voltei a sair cedo para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de
dá, fotografar. Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa
bicicleta. Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu
destino. As costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural.
Como andar de bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado,
chamaram-me a atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se
preferirmos corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares
comuns, há apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam,
em cada uma das manhãs frias de um outono de verdade.
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18.3.15
27.11.14
Objectiva arrefecida.
Um
dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me levantar da
cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão típicas da
madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses dias, a
necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão descuidados e nada
estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a vontade. Mas,
fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou escrevendo. É um
desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá em casa. Hoje tão
obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de verdade. Lembro-me
tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em detrimento do computador.
Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem alma. Não tem mais de
duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da pele de quem escreve.
Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes, voltei a sair cedo
para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de dá, fotografar.
Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa bicicleta.
Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu destino. As
costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural. Como andar de
bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado, chamaram-me a
atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se preferirmos
corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares comuns, há
apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam, em cada uma
das manhãs frias de um outono de verdade.
29.4.14
Português vivaz.
A
janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá
adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase
imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens.
Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo
pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica,
coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e
desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do
azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a
jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos
gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso.
Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha
com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste
quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica
pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de
ver.
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16.4.14
Impressão viva.
Ainda
a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a
neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está
frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente
misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente
apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos
para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre
tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu
amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o
material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver
se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no
meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais,
testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se
aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos
bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à
esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor
estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.
15.4.14
Só para dizer.
Ontem,
ao final da tarde, estive, uma vez mais, a tratar umas fotografias pendentes, a
organizá-las. Dificilmente as apago. Posso, contudo, não mais lhes atribuir
utilidade, quando não vejo para lá do óbvio. Até ao instante em que, de algum
modo, me regresse a disposição de lhes tomar qualquer coisa. Admiro tanto os
pormenores. É essa a certeza que tenho, quando vejo, revejo ou recordo uma,
duas ou tantas mais vezes através das minhas fotografias. Não sei se ultrapasso
a sensibilidade para fotografar. Não sei mesmo. Não sei se tenho mais do que a
essência de tomá-las de olho e obtê-las, posteriormente, na lente. No
computador e no papel de fotografia. Não sei, mesmo quando mas gabam. Mesmo quando
me dizem, em tom entusiasmado, gostar do que vêem nas minhas fotografias. Gosto
de passar, fotografar o que me puxou a atenção. Gosto de tornar a passar e, num
golpe de sorte, o mesmo quadro me guarda a atenção noutro pormenor. Apenas
ontem, enquanto voltava a olhá-las, reparei que o número trinta daquela rua
castiça, carregada de história, de alguma forma preservada sem estragar ou
castigar a narração do que de notável ficou, para lá do facto de ser pintada de
encarnado, de estar rodeada de uma pedra nobre e trabalhada, de ser coroada com
um número par, de ter dourados os puxadores e os postigos protegidos por um
rendilhado tão típico, oferece, assim estejamos disponíveis, o ano de mil
oitocentos e noventa e cinco. É a certeza de que, para lá da sensibilidade para
o enquadramento, gosto tanto de pormenores. O resto vem depois.
12.3.14
Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #3

Sei que, às vezes, ele vai
tirar umas fotografias junto ao rio. Ou ao mar, depende do tempo. Leva uma
daquelas máquinas fotográficas maiores. E pretas. De bom ar. Já o vi algumas
vezes. Ainda mal vai o dia nascendo, já para lá caminha. E parece um fotógrafo.
Trocamos umas palavras. É um miúdo moderno de cabeça no sítio. Bom rapaz, é um
bom rapaz. Frisou o senhor a alguém que me é junto. E, mesmo sem ele saber,
agradeço-lhe. Obrigado!
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