Aquele
prédio é alto. Dos que se impõem. Marca, altivo, a sua presença naquela rua
carregada de movimento, de pessoas, de transportes e de um todo do que se faz
uma cidade central e dinâmica. Também guarda devolutos, tantos. Aquele prédio
tem uma porta grande, de vidros vários, tão alta que convida a cabeça de quem
passa a olhar-lhe nos olhos. Uma montra velha ao lado, esquecida. Tão perdida
no tempo que não passamos sem recuar-lhe o olhar. Tem tantos andares, ainda
mais janelas. As tonturas obrigam a parar-lhes a contagem. Não sei quantas
janelas compõem-lhe a frente, tampouco o verso, que se esconde num dos típicos
jardins recuados. Ainda as janelas e quão diferentes são. Aquele prédio tem
janelas recuperadas, outras renovadas e ainda tantas desprezadas. Algumas
carregam a memória do ar condicionado. Umas limitam-se a ser um vidro inteiro,
as outras de vidros separados. Umas estão abertas, outras fechadas e há ainda
as que, pelo ausente uso, teimaram em tornar-se perras. À entrada, servindo de
tapete à porta grande e à montra zangada, temos calçada portuguesa, num desenho
que fizeram, nos tons que conhecemos. Passam pessoas, param pessoas. Ficam à
conversa sobre todas as coisas e sobre coisa de espécie alguma. Logo a seguir,
há quem entre pelo prédio, depois de avisar, pisando os degraus de madeira,
segurando o corrimão que partilha madeira com ferro. Lá em cima, num terceiro
andar, espera sempre alguém. Com a porta aberta, de sorriso franco, oferecendo
as boas-vindas.
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15.5.14
15.4.14
Só para dizer.
Ontem,
ao final da tarde, estive, uma vez mais, a tratar umas fotografias pendentes, a
organizá-las. Dificilmente as apago. Posso, contudo, não mais lhes atribuir
utilidade, quando não vejo para lá do óbvio. Até ao instante em que, de algum
modo, me regresse a disposição de lhes tomar qualquer coisa. Admiro tanto os
pormenores. É essa a certeza que tenho, quando vejo, revejo ou recordo uma,
duas ou tantas mais vezes através das minhas fotografias. Não sei se ultrapasso
a sensibilidade para fotografar. Não sei mesmo. Não sei se tenho mais do que a
essência de tomá-las de olho e obtê-las, posteriormente, na lente. No
computador e no papel de fotografia. Não sei, mesmo quando mas gabam. Mesmo quando
me dizem, em tom entusiasmado, gostar do que vêem nas minhas fotografias. Gosto
de passar, fotografar o que me puxou a atenção. Gosto de tornar a passar e, num
golpe de sorte, o mesmo quadro me guarda a atenção noutro pormenor. Apenas
ontem, enquanto voltava a olhá-las, reparei que o número trinta daquela rua
castiça, carregada de história, de alguma forma preservada sem estragar ou
castigar a narração do que de notável ficou, para lá do facto de ser pintada de
encarnado, de estar rodeada de uma pedra nobre e trabalhada, de ser coroada com
um número par, de ter dourados os puxadores e os postigos protegidos por um
rendilhado tão típico, oferece, assim estejamos disponíveis, o ano de mil
oitocentos e noventa e cinco. É a certeza de que, para lá da sensibilidade para
o enquadramento, gosto tanto de pormenores. O resto vem depois.
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