A
cadeira, quando permitem, é objecto de grande atracção e encanto. Resvala para
plano inferior quando, quem dela se ocupa, é digna do título de sumidade.
Estatura média, suportando um tailleur vistoso
de tecido nobre, o cabelo irrepreensivelmente armado, instala-se na
extremidade, tal qual lhe ensinaram. As pernas juntas, apartadadas para a
esquerda, os braços ligeiramente justapostos e as mãos entrelaçadas. Recusa
tomar chá. Apenas por hoje. Não pede scones. Não simpatiza, por aí além, com
tudo o que se faz cliché. Fala, quando encontra justificação. Permanece a
aliança. Memória residente na mão esquerda. Aceita tomar uma bebida
espirituosa. Há excepções que merecem lugar. É inteligente. Também nos actos.
Olhando-a, desta forma, sentado ao redor, no cadeirão datado, poder-se-ia
julgá-la arrefecida e ociosa. Falácia! É, garanto, modesta, da mesma forma como
nos sentamos numa cadeira. Ensinou-me, desde cedo, que homem ou mulher, não nos
esgotamos na aparência, muito menos naquilo que possuímos.
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28.10.13
21.10.13
Eu. Os meus (grupos de) amigos. E a política.
Mentiria
se ousasse dizer que, perante outros, não fui um privilegiado em todo o tempo.
Desde sempre. Fui, felizmente, bafejado pelo amor de uma família íntegra,
tradicional, com valores e sentimentos. Quero, tanto quanto possível,
honrar-lhes isso. A passagem de conteúdos íntimos e ternamente convictos. Com
haveres, foi-lhes capaz, até dada altura, dar-me acesso a uma vida sobejamente
confortável. Não é blasonar, é confirmar factos. Invariavelmente, tenho amigos
e conhecidos que tiveram acesso, igualmente, a uma vida que oferece bem-estar.
Por outro lado, a outros tantos que me pertencem por direito da amizade, a vida
não foi tão fácil. Mas felizes, revelaram inquietação e desembaraço. São, por
esta altura, o que sonharam. Sem pôr nem tirar. A vida dissipa-nos,
afortunadamente, e vai-nos permitindo conhecer pessoas de diferentes
quadrantes. A política, quando alguns não se recusam abordar, é tema em que,
por vezes, tomamos posições distintas. Não é, jamais, um ponto de divergência.
Pelo contrário, é ponto de discussão à mesa, no sofá, na varanda, à porta.
Somos plurais. Assim é, que quando ouvimos, de quem de direito, anúncios
astronómicos, as leituras são várias. Discutivelmente matizadas.
9.10.13
Omitir o tempo.
A
tua idade permite-te pensar que o tempo é inesgotável, longínquo até. Vais
entorpecendo nessa imagem, nessa ficção. Num movimento desordenado pela rotina,
pela tua vontade e pelas provadas vivências. Os teus desejos, raras vezes, dão
lugar a dignas conquistas. Atordoado, és convidado a perceber que o tempo se consome
até ao último instante. Porque à tua volta há casamentos, uniões de facto,
gravidezes, nascimentos, despedimentos, novos empregos, viagens e regressos,
funerais e morte. Não sendo alheio, faz sentido não deixar de lembrar.
17.8.13
Uma provida vila. Uma herança.
A
aldeia que deu lugar a vila manteve-se, a olho nu, intacta. Tal e qual a
conhecemos. Sem pretensões irreais e desmedidas. Eu, real desprovido, até de
memória, havia esquecido que a aldeia de sempre, afinal, se tornara vila. Sabia-o
tão bem. Contudo, durante a mais ou menos entusiasmada escrita, do lugar que
adoro, fugiu-me, vezes sem conta, a memória, nem sempre ausente, daquele lugar,
em tempos, aldeia. Agora uma bonita e portentosa vila. Na verdade, os lugares,
tal como as pessoas, quando evoluem, quando mudam de condição, podem, não raras
vezes, manter-se intactas, fiéis e verdadeiras. Admiro, sempre, essa capacidade
de evolução sem mutação. Ali, onde estive todo o dia, respirei fundo, tantas
vezes quantas possíveis. E senti que, não sendo nunca o meu lar, há heranças
que nos chegam. Que nos chegam, antes mesmo, de nós chegarmos.
15.8.13
O Algarve tem uma aldeia.
Além,
onde a serra se funde com as mais belas espécies existe uma aldeia. Uma aldeia que
deu lugar a ascendentes familiares que tanto prezo. Que amo. Desde sempre. Da
infância guardo as visitas, o regresso. À aldeia. Às pessoas. Aos familiares
que, amiúde, me esqueço. Engraçado lembrar-me que nunca havia ficado por lá mais
que um dia. Nunca. Era uma visita em jeito de passagem. Cada vez menos, muito
menos, são os regressos, as visitas. Contudo, não esqueço o lugar. As casas
pintadas. As pessoas às janelas. As pessoas sentadas no poial, como se diz por
lá. As ruas empinadas. A calçada. As ruas estreitas. As janelas de madeira. A matriz.
A garagem que deu lugar à mercearia. As árvores e as flores reluzentes nos
canteiros. O eucalipto. Os amores perfeitos. As ribeiras de água escorreita. O
cheiro, o cheiro é inigualável e indescritível, no entanto, ao longe já se faz
sentir. No Algarve, num outro Algarve existe uma aldeia. Também, no Algarve,
existem aldeias. Onde pessoas e paisagem fazem sentido. Onde o postigo, por
momentos, mantém-se aberto. E é aqui que, não quando quero, mas quando preciso,
regresso. Na última quarta-feira regressei. Novamente, não porque quero, mas
porque a vida chamou. A vida não. A morte. Maria Rosa, partiu. Melhor assim,
dizem. Partiu da aldeia e das pessoas de sempre. De e para sempre.
19.7.12
Voltei.
Às vezes não precisamos de ter o tempo muito ocupado para não termos tempo para fazer aquilo que queremos e precisamos. Procrastinamos até ao limite, alegando que depois fazemos e fazemo-lo melhor e mais depressa. Mentira! Não acontece, simplesmente.
Bem, ausências à parte, não resisto escrever sobre uma situação que venho vivendo nos últimos dias. A saúde é um bem que jamais devemos colocar à mercê de uma qualquer vontade ou vício. Há exactamente uma semana, um familiar alucinou completamente. Quando digo que alucinou, aconteceu de uma forma bastante agressiva e sem capacidade para combate-la. Depois, não se tratando de alguém muito próximo, porque nem tão pouco costuma ser visita de nossa casa, desconhecíamos o seu historial clínico, mas acabamos por desconfiar de uma esquizofrenia não assumida e muito menos tratada. Uma primeira ida ao hospital não resultou, porque o seu discurso tornou-se fluente e sem quaisquer sombras do que havia sentido e dito. Acabou por se refugiar, já fora do hospital, recusando a ideia de que padecia de um problema que necessitava de tratamento o quanto antes. Esta situação prolongou-se por cinco dias, mas ontem, por fim, conseguimos levá-lo novamente para o hospital, onde a recepção foi bem melhor e mais direccionada para o problema. A noite foi longa, mas até aqui, mantém-se hospitalizado e aguardamos notícias de quem o ficou a acompanhar.
Não consigo escrever sobre o que senti durante todos estes dias. Era olhá-lo cabisbaixo, notoriamente com um sofrimento interno desmedido, para não falar dos momentos de extrema revolta e agressividade. É terrível estarmos frente-a-frente com uma pessoa que se autodestrói e recusa tratamento. É a ausência de vida e de capacidade de viver. Felizmente, conseguimos encaminha-lo. Aguardamos francas melhoras.
Voltei, mas não foi de férias!
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