27.5.14

Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.

Quando petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções. Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas, espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos, que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas. Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos falhou aos dezoito anos.

4 comentários:

  1. Eu e a minha amiga da adolescência (e de sempre) continuamos a sonhar com a nossa pão de forma. Os anos passam, ela vive em Inglaterra e com um filho, mas nós continuamos a sonhar com a nossa pão de forma. :)*

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  2. Nunca deixar de sonhar...e nunca deixar de ter uma falta de juizo moderada...senão onde é que está a magia?
    Quanto à pão de forma...como sonhei com ela anos a fio...ainda hoje quando vejo uma o meu coração acelera...como se os meus sonhos tivessem nela. Mas até lá...que se viaje de outra forma =)

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  3. Raquel,
    Eu também não perdi a esperança de ver chegar a pão de forma, de correr o mundo possível com ela e com os amigos que, comigo, arquitectaram esta típica vontade.
    Os anos só podem apurar os nossos sonhos. Um beijo :)

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  4. Nada,
    A ideia de que, em adultos, temos a certeza de que os sonhos se vão embora e o juízo chega em doses, para mim, letais, é um absurdo. Depois, temos à nossa volta vontades e realidades reprimidas.
    Eu, nos dias de hoje, também tenho essa sensação, quando vejo uma pão de forma. Parece, em instantes, o sonho mais próximo :)

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