Perdi a conta às conversas online agendadas no último trimestre.
Imperativo da época, sob pena de atentarmos, desde logo, à sanidade e, no mesmo
terreno, à amizade. Nada que, nos tempos globais, não seja prática. Como, de
resto, já vinha sendo. Afinal, amigos a usar dessa escala é, por demais,
habitual. Agora, a distância impondo-se de somenos. E, consumidos pela saudade,
ideamos os mais urdidos eventos. Gente com disposição de espírito e
extravagância quanto baste. Não fracas vezes, acompanhados por uma taça de
vinho, ou garrafa, conforme o arrebatamento. Estoutro amiúde sugestão de um dos
convivas, letrado em enologia. Confesso tolerada frustração por, até aqui, não
me mostrar disponível para me fazer melhor conhecedor. Enfim, questões tamanhas
se apresentam, como uma aventada por um amigo. Assume ele, e não desminto, é
feito de humores, mas acima de tudo, de humor. E, com uma arma tremenda entre
mãos fê-la sempre prioridade. Na roda de amigos, mas e com outro vigor no
investimento que sempre emprestou ao amor. E, esta arquitectura mais ou menos
trôpega valeu-lhe, a todos os momentos, a sorte grande. E tudo bem. Mas, não
esquece ele, o confinamento traçou-lhe um quadro bastante atípico. Perdeu a
graça, avança. Já não partilham risadas dilatadas como dantes, nem experimentam
uma dose menor, porém confortável e saborosa. Os silêncios – massa tão valorosa
entre duas pessoas que se gostam – ganharam peso e presença residente. A
relação que há pouco começara padeceu dessa circunstância. Afastando o corpo e,
pior, o interesse. Longe que estou de travar-me entendido nessas matérias,
antecipo um diagnóstico que em nada reside no humor, antes na fragilidade do
que ambos viviam. As relações são um património, os próprios e os adquiridos. E
não confio num aspecto concreto e irrefutável, para atestar o ponto final.
Aceito a necessidade de comprovar um erro, para ilibar a seguir. Somos gente e
alicerçamos em solecismo. Não é novo o desmoronar, mas é com estupefacção que o
olhamos e sentimos. A ilusão, coisa legitima, de que quando partilhamos com o
outro, somos uma massa comum, indissociável. O amor, quem o não tem. E quem o
não perdeu. Força, caríssimo. A labuta apenas começou.
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9.6.20
22.2.18
Da verdade dos anos largos.
Trocámos
o abraço de todo o tempo. Demorado como a distância exigiu. Não doutrinamos a
pressa. Jogamos com a solenidade da presença. Não sabia por palavras dela, o
que já sentia. Guardava, singela e constrangida, para o jantar que se seguia. Neste
frente-a-frente, fico a perder. Somos amigos desde tenra idade, sequer sabíamos
eleger categorias de uma vida que havia de chegar. Adivinhávamos. À sorte, pela
sorte. Aqui, olhos nos olhos, nesse certame que é a amizade. Ao redor, há
burburinho, cabeças baixas, ora atentas ao prato, ora presas no telemóvel. Quase
não damos por elas. Alongámo-nos na prosa com recheio. Matámos saudades.
Cumprimos necessidades. Deixámos esfriar os pratos. Tomámos água, para não
adulterar o discurso e a apreensão. E deixei-me seguir, sendo todo ouvidos, com
pausas para retorquir. Neste frente-a-frente, particular e inopinado, fico a
perder. Somos amigos de longa data. Dos tempos em que o meu cabelo já gritava o
quão beto me guardava e em que o dela não desmentia a sua vocação para
menina-princesa. Aprecio quem conversa sem desviar o olhar, atenta e
convictamente. Como acontece. Apreensiva, foi soltando o que guardava para me
contar. Vejo a mulher do momento e a criança do laço gigante na cabeça. Quer
contar-me. E já sei. Finalmente, a coragem fez sair cada palavra. Sorri-lhe,
porque não sei fazer de outra forma. Não dei falsos confortos. Compreendi e
opinei. Não defendo, mas entendo. Neste frente-a-frente, sou manifestamente
menor. Pelo amor que a amizade construiu, pela necessidade de protecção que não
dispenso. Recuso ardilosas palestras sobre o outro. Como se as acções fossem o
resultado do todo. Ou a moral uma presa fácil. Ninguém é tão autómato ou irrepreensível.
Finda a noite, neste frente-a-frente, um inesperado empate. Pela hombridade com
que conduz a sua vida, e eu por vê-la fincar o pé em terreno pantanoso, quando
estava num passeio no parque. Mesmo sem o laço de outrora, continuas a fazedora
de todas as coisas.
21.2.18
Ininterrupção de instantes.
Venho
chegando, com a noite assumida, enquanto oiço Gorillaz. Esta canção tem história, prosa demorada, para outros
temperos. Viro à esquerda, para encontrar o beco. Casas grandes, com jardins
bonitos. Sei-os de cor, tantas as visitas. Junto ao portão escancarado, depois
de estacionar o seu Mini, alguém
acena, com vontade e precisão, temendo não ser vista. Devolvo, com sorriso e
tudo. Procuro estacionar, mas não fico satisfeito. Saio do carro contrariado.
Conjuro no desassossego mental, léxico que tem falta de maturação. Trago um
presente, um vinho pomposo. Mãos ocupadas, eu na corda. Chego-me à simpatia do
aceno, trocámos dois beijos – ainda sou pela dupla do verbo. E pergunta pelo
que me traz ali. Afazeres, ensaiei responder. Fiz-me melhor rapaz, cumpri a
verdade e procurei pela família. Todos bem, como se quer. O irmão volta em
breve. Amigo de outras paragens. Agora tenho de ir, que já me faço em cima da
hora. Fracos passos e toco na campainha. Vejo a luz acender, logo se faz ouvir
o cão da casa. Recebe-me antes de todos. O entusiasmo de sempre. Não guardo
palavras para a empatia que fixámos, eu e o pequeno animal. Pequeno com todas
as comas. Passadas as brincadeiras iniciais, entrego o empolado vinho.
Lembrando, entre risadas, outros bem fajutos que outrora bebericámos. Feitos
todos os cumprimentos, volta a certeza de que estou sempre bem por aqui. Falta
alguém, mas não resta assunto. Fica para depois. Enquanto me leva o casacão,
pisca-me o olho. Devo ter esboçado uma fácies atabalhoada. Pior, só a barba
demorada. Negligentemente aparada. O meu pai já nem aventa questionar. Ganho,
por estar longe da vista. Servem-me a primeira taça. Grande noite se principia.
10.10.17
Descalcei as alpergatas.
Conheci-os
algures. Numa distância que não tem tempo, contado ou pensado. Valeram-nos as
prosas dilatadas, as janelas de sacada largas, o sol em brasa ou as noites bem
regadas. Não cabe nesta jornada nem um soluço de pausa. Lembro-me dos pés
descalços, das peles douradas, dos cabelos húmidos e dos olhos arregalados. Parece
conto, veste-se de fábula. É antes uma verdade abençoada. Guardo os amores de
perder a alma, as paixões de ferver o sangue, os jeitos amancebados com os
gestos e as desilusões de comer a carne. Parece exagero de puto iludido, mas
não é senão delicadezas de um tempo detido pelas exigências. Éramos um tudo e
um tanto mais. Atirávamos ao ar, à sorte e ao mar. Puritanismos ao longe,
fingíamos adiante do nosso presente. Recusando não experimentar. Era forte, era
pressa. Primeiro testar, depois atestar. Ficou-nos a amizade de todo o tempo. A
simbiose do pensamento e da sinceridade. Os jogos atravessados, os copos
levantados, as noites que não zangavam os ponteiros, a praia com cheiros bons e
mergulhos conversados. Conheci-os algures, em espaços e datas diferentes.
Trago-os desde longe. E aperalto-os com adjectivos, partilhas e sentimentos genuínos.
Efusivos e, admito, um pouco floreados. Mas não minto. Nem tagarelo em vão.
Eles hão-de rir, gargalhar e levar as cabeças atrás, enquanto tomamos uma
bebida da moda ou uma cerveja barata. Mas é certo, hão-de devolver-me na mesma
medida, mesmo que entre dentes. As mensagens partilhadas são autênticas e irreflectidas
homenagens. Conheci-os algures. Numa cronologia sem constrangimentos.
Crescemos. Ainda voltamos às prosas dilatadas, às janelas de sacada largas, ao
sol em brasa ou às noites bem regadas. Com o mesmo entusiasmo, com menos
aflição e outras idades. Roubamo-nos nestes pormenores. E somos tudo e um tanto
mais. Ainda somos tudo, ainda esperamos um pouco mais. O verão a fazer das
suas, na época e no ano inteiro.
9.10.17
Conservar em tempos de mudança.
Logo
petiz, apressava-me a escutar as conversas que sobrevoavam o meu ambiente. As
que importavam aos meus. Com aqueles trajes aperaltados que a minha mãe
preferia colocar-me. Os sapatos impecavelmente limpos, as meias subidas. A camisa
com o quadriculado nos mesmos tons. A malha lisa e composta logo por cima. O
cabelo excessivamente liso e penteado. Os olhos grados, os ouvidos atentos. Se
não me falha a memória, um relógio no pulso. Já na altura, no pulso que hoje se
impõe. Não servia para coisa alguma, bem se percebe. No fundo, já denunciava
quão beto e polido havia de me conhecer. E sentava-me como manda a lei, por
ordem da minha imaginação, numa cadeira privilegiada ou num sofá estratégico.
Jamais furtivamente, que a impaciência fazia-me chegar de igual para igual.
Como se fosse, alguma vez, possível. Mas devolviam-me, quando não me impunham
outros afazeres, a decência de ter lugar. E deliciava-me com o baile de prosa
que por ali acontecia. A política exaltava os discursos, o futebol animava os
convivas, os vinhos e as suas texturas amenizavam os saberes, o trabalho e os
seus reveses impunham-se em todo o tempo e o mundo inteiro guardava lugar ali.
E eu inundado pelo fascínio. Absorto, não poucas vezes, pela desinformação e
desconhecimento característicos da idade. Mas fazia sentido. E quando assim é,
fica o calor de experimentar. O tempo passa, e confiando nele, nem guardamos as
contas de o ver seguir. E, volvido, vejo-me na cadeira de outrora ou no sofá
confortável. Crescido, ainda com os olhos grados e os ouvidos atentos. O
relógio com as horas certas. Os sapatos limpos, que podem ser os ténis mais
inusitados e os menos preferidos de quem vê. O cabelo com outro preceito. E a
mesma convicção de que quero fazer parte. Agora eloquente e escutado. Espero
que igualmente polido, menos beto. Mantenho o amor e o interesse. Pelos meus,
pelas palavras dos meus. Com a hombridade de me fazer presente e assumir que
vou mudar. E estar preparado para ver o espanto e o amor a condicionar os
gestos, as palavras. Vou mudar. E não posso oferecer garantias de que para
melhor. Mudei e não consigo explicar, senão porque me custava mais não
arriscar. Que me restem sempre estas pessoas, os seus discursos longos, a sala
com os melhores assentos. E a necessidade desmedida de os querer ver, escutar e
sentir.
30.5.17
Prerrogativa de alguns.
A
vista condiz com o balão de gin que tenho à minha frente. A companhia também.
Somos três à espera do quarto elemento. Todos virados para o assombro que pode
ser um lugar aos pés de alguém. A altura não debota as cores, antes dá-lhes
vida, afina os traços e confere-lhes rigor. O mar parece mais azul, o pouco casario
finge-se imaculado. O azul vai bem com tudo (nota de redacção: sem qualquer referência clubista associada). Aqui
não é excepção. Daqui não fugimos à ilusão. Perpetramos o sossego de não ir
para além da prosa. Esta manhã, logo cedo, uma cara amiga gabou-me os ténis –
na verdade, não sei o nome que têm, não são ténis, não são alpergatas,
porventura um híbrido do calçado. Tipicamente veranais. Ao final da manhã, já
havia esgotado um tanto do que me esperava. A tarde foi um soluço dos dias e um
conhecido falou-me do meu bom ar. Agora, com a tarde a fazer-se velha, deleitado
com a companhia destes amigos. Já nem faço referência à vista. Que há-de estar
sempre ali, assim lhe seja feita justiça. Aqui, ao redor das bebidas bem
temperadas, com o quarto elemento já na teia, lembrámos como algumas conversas
já nos maçam. Como redefinimos o foco, a direcção do que nos acrescenta e do
que já não nos sustenta. Noutros tempos, talvez menos dotados de filtro. Mais
reveladores de uma imaturidade que não sendo flagrante, sobrevoava-nos. Temos
tempo para lembrar que o Benfica fez-se rei da época e também veste encarnado. A
última, ideia de um beto que não nega as raízes. Do berço cheio de modos de
peralta e do futebol dos vermelhos. Nele, entre risadas, assenta-lhe bem o
encarnado. Discutimos a influência dos outros nas acções de cada um. E do quão
tardo pode ser embarcar nessa rota. Enfim, a tagarelice de sempre. Com muita
carolice à mistura. Enquanto isto, o mundo ao redor não ferve tanto na banda
das coisas boas. Mas ao nosso lado, duas belas jovens trocam fios de flores
miudinhas. Cruzam as mãos e um beijo singelo. Nem tudo está errado. Quando no
meio de tudo isto, ainda há quem escolha viver.
25.5.17
Afecto ardente numa 'Vespa'.
Vem
uma Vespa disparada, de azul petróleo
pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro
escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan
clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos
resguardados por uns Dior. Nos pés,
trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com
leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola
às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os
marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro
das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas.
Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os
convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e
médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao
céu. Aplausos. Ela desce da Vespa
azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e
comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como
a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase
envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de
couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com
firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o
lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e
cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa
com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As
vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida,
braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade.
Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão
e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.
24.5.17
Moralmente salutar.
As
desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as
leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas
é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E
esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é
fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido.
Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os
sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a
minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos,
em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão
felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos
novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo
da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é
tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A
diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como
naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque
das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado.
Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que
fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci
naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais
velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por
isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca
passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta
giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar.
Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas,
com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida
parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela
insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o
ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em
seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já
me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada.
Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente
bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo
vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais
felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir
contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.
23.5.17
Moderação dos dias.
Sento-me
de fronte para o computador portátil, na cabeça traço um sem fim de ideias.
Elaboro-as de um jeito precoce, ainda sem tempo para as desenhar no papel. Ameaço-me
com a certeza de que muitas não vão avante. Ficam na intimidade dos meus
desmazelados pensamentos. E, sem prejuízo, não me constrange, nem tira a
liberdade. Hei-de arranjar espaço. O disco externo morreu, parece não fazer
sentido. Mas cabe nele toda a cumplicidade. Nele, uma vida engolida. Perto do
esquecimento. Tomo notas para me lembrar que os dias vão mudar. Lixei um dedo
com uma inócua - contudo potente arma - folha branca. Lancei um palavrão ao ar.
Faço uma pausa. Descarrego um café. Não lhe coloco açúcar e deixo-o temperar
com um curto descanso. Assomo-me à janela. Tudo como dantes. Nesta travessa há
descanso. Na rua seguinte, avançam carros sem cessar. Volto ao computador, a
regra mantém-se. Tudo como dantes. Sigo entre e-mails antigos, a recuperar
pendências. Ligo uma vez mais o som, para fazer companhia. No telemóvel um dos
grupos pergunta para quando uma conversa pelo Skype. A verdade é que venho procrastinando, à espera de dias mais
propensos. Que não chegam. Com promessas de que é sempre amanhã, no máximo
depois. Afastando-me dos copos de vinho que não partilhámos, da prosa que
deixámos pendente. Dos rumores que não chegam a verdades contadas. Chega mais
uma cobrança e não me sinto confiante com o termo. Não me obrigam, não me
maniatam nem constrangem. É a saudade da distância a tomar as rédeas. E tristes
os dias em que o inverso se torne na norma. Tenho de tentar salvar os
documentos putativamente perdidos no disco externo. Há sempre quem nos acorde.
E não merece senão gratidão.
18.5.17
Em diferido. #59
Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
9.5.17
Palanque matinal.
Ora
um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um
aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e
habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a
manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem
pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da
manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e
cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do
arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente
a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos
sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem
as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no
limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um
quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o
púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com
bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo
combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma,
que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e
volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram
desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre
gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os
tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo
como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos
recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.
27.4.17
Inócuas tertúlias e um jardim repensado.
É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
2.3.17
Entusiasmo matutino.
O
dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai
sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar
insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto
sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira
feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não
havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que
não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já
de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que
recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um
atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso.
Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com
ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me
nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as
ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece
desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da
partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como
fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço
qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.
1.3.17
Ser humano do sexo feminino.
Chega
no BMW, com o cabelo arranjado, de
longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a
estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento
exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso
largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar.
Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto
generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a
marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós,
sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações
num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona
do BMW. Os olhares alheios têm um só
destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se
pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns,
conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É
puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica,
profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor
dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O
corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos,
em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher,
bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são
genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia,
difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do
outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de
existir.
27.2.17
Rotundo festim na secretária.
No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos
graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a
secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das
palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como,
a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as
lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho
hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até
à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente
simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A
primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra
de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns
quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e
grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético
viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração.
Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas,
tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este
tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que
merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é
forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há
mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a
colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem
mais redondos.
22.2.17
Em diferido. #55
Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e
o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos
pormenores. Nos pés levo New Balance,
numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de
assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de
restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração
pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os
copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura,
nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em
tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas.
Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não
termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a
lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca
da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com
teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais.
Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo
atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar
presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido
como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um
valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar.
Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a
lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder
é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica
tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma
companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame
de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos
amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom
par de ténis.
21.2.17
Estro que me enche o peito.
Ainda
petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava
com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não
me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os
excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá
atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A
vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia,
um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a
bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na
medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza
da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o
entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era
potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais
adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A
galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de
guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais
banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em
giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar.
Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada.
Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas
não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos
que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que
criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações
que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca
amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu
oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar
seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração
decente.
20.2.17
Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.
Já
lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos
num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar.
As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a
chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo
ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado
quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês,
talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar.
Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado.
Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria
possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o
desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de
banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos
a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em
muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra,
por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e
de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora,
as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da
idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda
assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente
relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão
conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a
efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para
manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem
receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos
apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não
mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira
da escola. Uma vida cheia. Não duvides.
6.2.17
Virente memorizar.
Rabiscar
a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o
branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a
para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que
promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe
das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a
razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje
que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas
que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa
vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com
todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos
também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa
escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que
instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali,
verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista
em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor.
Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos
rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.
30.1.17
Verosímil simpatia.
Vem
de longe a minha, mais do que simpatia, admiração pelo genuinamente bom. No mesmo
sentido, noutra e maior escala, vem de um ponto que se despede de memória, o
meu sentimento de reverência para com as pessoas boas. Não acontece ser um
apontamento fugaz, uma voz que deixa aqui, entre a luz do sol e a penumbra da
noite, a tentação de fazer parecer. Fá-lo sempre, seja sob o brilho que
irradia, seja sob o escuro do destino fatalmente taciturno da noite. Dá-se a
sorte no momento em que não fujo à verdade de, sem modéstia, lembrar que
conheço gente boa. Mulheres e homens que vivem por e para se dedicar a causas
tão terrenas quanto necessárias. Sem que belisquem a individualidade e deixem
fugir a vida. Que são fiéis à psique evoluída, ao coração que bate certo e não
se deixa indiferente, à carne que não sucumbe ao medo, e que se cumprem no
caminho inverso da avalancha que a sociedade atesta. Afasto-me, com a devida
vénia, dessa definição. Serei alguém que procura medir a razão e a convicção
interna, bem como, no trato com o outro. Fico comedido perante a dimensão da
bondade alheia. Também de longe, vem a minha amizade com um tipo que não tem
escala. Antes mesmo do tempo em que me apelidava, num tom jocoso, de beto.
Respondi-lhe sempre que sou um fruto do acaso. Rimo-nos tanto, que as
esperanças eram seguir o trecho do que haviam desenhado para nós. Volvidos
estes anos, somos os mesmos. Ele insiste na promoção do bem. Investe no corpo e
na alma. Viaja sem destino para o lugar que lhe guarda o fado e a lucidez. No
nosso último encontro, dois dias antes da viagem que se seguia, fomos para um
lugar de encontros antigos, numa sala reservada para nós, a conversar e a
lembrar sem equívocos. Éramos seis à volta de uma mesa improvisada. Que este é
um tipo que não escolhe o design. De cerveja na mão, de calções e t-shirt, de
sandálias no pé, falou, uma vez mais, com mérito. Hei-de de escrever sobre o
meu amigo que é amigo da vida. Dias depois, havia de receber um e-mail dando
conta da sua saída das redes sociais – na verdade, da única que utilizava e de
forma bastante breve – no mesmo, continuava com um texto que se curva no desejo
de voltar a ouvi-lo. Demos um abraço forte. O tipo bom, que tem prosa bonita e
sandálias de couro e o tipo que agradece a amizade, calça sapatos bonitos e
ténis da moda, dá o braço à perseguição de fazer melhor e que, sem prejuízo,
continua a afirmar que é um beto do acaso.
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