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9.6.20

Coquetel e torpor dos sentidos.

Perdi a conta às conversas online agendadas no último trimestre. Imperativo da época, sob pena de atentarmos, desde logo, à sanidade e, no mesmo terreno, à amizade. Nada que, nos tempos globais, não seja prática. Como, de resto, já vinha sendo. Afinal, amigos a usar dessa escala é, por demais, habitual. Agora, a distância impondo-se de somenos. E, consumidos pela saudade, ideamos os mais urdidos eventos. Gente com disposição de espírito e extravagância quanto baste. Não fracas vezes, acompanhados por uma taça de vinho, ou garrafa, conforme o arrebatamento. Estoutro amiúde sugestão de um dos convivas, letrado em enologia. Confesso tolerada frustração por, até aqui, não me mostrar disponível para me fazer melhor conhecedor. Enfim, questões tamanhas se apresentam, como uma aventada por um amigo. Assume ele, e não desminto, é feito de humores, mas acima de tudo, de humor. E, com uma arma tremenda entre mãos fê-la sempre prioridade. Na roda de amigos, mas e com outro vigor no investimento que sempre emprestou ao amor. E, esta arquitectura mais ou menos trôpega valeu-lhe, a todos os momentos, a sorte grande. E tudo bem. Mas, não esquece ele, o confinamento traçou-lhe um quadro bastante atípico. Perdeu a graça, avança. Já não partilham risadas dilatadas como dantes, nem experimentam uma dose menor, porém confortável e saborosa. Os silêncios – massa tão valorosa entre duas pessoas que se gostam – ganharam peso e presença residente. A relação que há pouco começara padeceu dessa circunstância. Afastando o corpo e, pior, o interesse. Longe que estou de travar-me entendido nessas matérias, antecipo um diagnóstico que em nada reside no humor, antes na fragilidade do que ambos viviam. As relações são um património, os próprios e os adquiridos. E não confio num aspecto concreto e irrefutável, para atestar o ponto final. Aceito a necessidade de comprovar um erro, para ilibar a seguir. Somos gente e alicerçamos em solecismo. Não é novo o desmoronar, mas é com estupefacção que o olhamos e sentimos. A ilusão, coisa legitima, de que quando partilhamos com o outro, somos uma massa comum, indissociável. O amor, quem o não tem. E quem o não perdeu. Força, caríssimo. A labuta apenas começou.

22.2.18

Da verdade dos anos largos.

Trocámos o abraço de todo o tempo. Demorado como a distância exigiu. Não doutrinamos a pressa. Jogamos com a solenidade da presença. Não sabia por palavras dela, o que já sentia. Guardava, singela e constrangida, para o jantar que se seguia. Neste frente-a-frente, fico a perder. Somos amigos desde tenra idade, sequer sabíamos eleger categorias de uma vida que havia de chegar. Adivinhávamos. À sorte, pela sorte. Aqui, olhos nos olhos, nesse certame que é a amizade. Ao redor, há burburinho, cabeças baixas, ora atentas ao prato, ora presas no telemóvel. Quase não damos por elas. Alongámo-nos na prosa com recheio. Matámos saudades. Cumprimos necessidades. Deixámos esfriar os pratos. Tomámos água, para não adulterar o discurso e a apreensão. E deixei-me seguir, sendo todo ouvidos, com pausas para retorquir. Neste frente-a-frente, particular e inopinado, fico a perder. Somos amigos de longa data. Dos tempos em que o meu cabelo já gritava o quão beto me guardava e em que o dela não desmentia a sua vocação para menina-princesa. Aprecio quem conversa sem desviar o olhar, atenta e convictamente. Como acontece. Apreensiva, foi soltando o que guardava para me contar. Vejo a mulher do momento e a criança do laço gigante na cabeça. Quer contar-me. E já sei. Finalmente, a coragem fez sair cada palavra. Sorri-lhe, porque não sei fazer de outra forma. Não dei falsos confortos. Compreendi e opinei. Não defendo, mas entendo. Neste frente-a-frente, sou manifestamente menor. Pelo amor que a amizade construiu, pela necessidade de protecção que não dispenso. Recuso ardilosas palestras sobre o outro. Como se as acções fossem o resultado do todo. Ou a moral uma presa fácil. Ninguém é tão autómato ou irrepreensível. Finda a noite, neste frente-a-frente, um inesperado empate. Pela hombridade com que conduz a sua vida, e eu por vê-la fincar o pé em terreno pantanoso, quando estava num passeio no parque. Mesmo sem o laço de outrora, continuas a fazedora de todas as coisas.

21.2.18

Ininterrupção de instantes.

Venho chegando, com a noite assumida, enquanto oiço Gorillaz. Esta canção tem história, prosa demorada, para outros temperos. Viro à esquerda, para encontrar o beco. Casas grandes, com jardins bonitos. Sei-os de cor, tantas as visitas. Junto ao portão escancarado, depois de estacionar o seu Mini, alguém acena, com vontade e precisão, temendo não ser vista. Devolvo, com sorriso e tudo. Procuro estacionar, mas não fico satisfeito. Saio do carro contrariado. Conjuro no desassossego mental, léxico que tem falta de maturação. Trago um presente, um vinho pomposo. Mãos ocupadas, eu na corda. Chego-me à simpatia do aceno, trocámos dois beijos – ainda sou pela dupla do verbo. E pergunta pelo que me traz ali. Afazeres, ensaiei responder. Fiz-me melhor rapaz, cumpri a verdade e procurei pela família. Todos bem, como se quer. O irmão volta em breve. Amigo de outras paragens. Agora tenho de ir, que já me faço em cima da hora. Fracos passos e toco na campainha. Vejo a luz acender, logo se faz ouvir o cão da casa. Recebe-me antes de todos. O entusiasmo de sempre. Não guardo palavras para a empatia que fixámos, eu e o pequeno animal. Pequeno com todas as comas. Passadas as brincadeiras iniciais, entrego o empolado vinho. Lembrando, entre risadas, outros bem fajutos que outrora bebericámos. Feitos todos os cumprimentos, volta a certeza de que estou sempre bem por aqui. Falta alguém, mas não resta assunto. Fica para depois. Enquanto me leva o casacão, pisca-me o olho. Devo ter esboçado uma fácies atabalhoada. Pior, só a barba demorada. Negligentemente aparada. O meu pai já nem aventa questionar. Ganho, por estar longe da vista. Servem-me a primeira taça. Grande noite se principia.

10.10.17

Descalcei as alpergatas.

Conheci-os algures. Numa distância que não tem tempo, contado ou pensado. Valeram-nos as prosas dilatadas, as janelas de sacada largas, o sol em brasa ou as noites bem regadas. Não cabe nesta jornada nem um soluço de pausa. Lembro-me dos pés descalços, das peles douradas, dos cabelos húmidos e dos olhos arregalados. Parece conto, veste-se de fábula. É antes uma verdade abençoada. Guardo os amores de perder a alma, as paixões de ferver o sangue, os jeitos amancebados com os gestos e as desilusões de comer a carne. Parece exagero de puto iludido, mas não é senão delicadezas de um tempo detido pelas exigências. Éramos um tudo e um tanto mais. Atirávamos ao ar, à sorte e ao mar. Puritanismos ao longe, fingíamos adiante do nosso presente. Recusando não experimentar. Era forte, era pressa. Primeiro testar, depois atestar. Ficou-nos a amizade de todo o tempo. A simbiose do pensamento e da sinceridade. Os jogos atravessados, os copos levantados, as noites que não zangavam os ponteiros, a praia com cheiros bons e mergulhos conversados. Conheci-os algures, em espaços e datas diferentes. Trago-os desde longe. E aperalto-os com adjectivos, partilhas e sentimentos genuínos. Efusivos e, admito, um pouco floreados. Mas não minto. Nem tagarelo em vão. Eles hão-de rir, gargalhar e levar as cabeças atrás, enquanto tomamos uma bebida da moda ou uma cerveja barata. Mas é certo, hão-de devolver-me na mesma medida, mesmo que entre dentes. As mensagens partilhadas são autênticas e irreflectidas homenagens. Conheci-os algures. Numa cronologia sem constrangimentos. Crescemos. Ainda voltamos às prosas dilatadas, às janelas de sacada largas, ao sol em brasa ou às noites bem regadas. Com o mesmo entusiasmo, com menos aflição e outras idades. Roubamo-nos nestes pormenores. E somos tudo e um tanto mais. Ainda somos tudo, ainda esperamos um pouco mais. O verão a fazer das suas, na época e no ano inteiro.

9.10.17

Conservar em tempos de mudança.

Logo petiz, apressava-me a escutar as conversas que sobrevoavam o meu ambiente. As que importavam aos meus. Com aqueles trajes aperaltados que a minha mãe preferia colocar-me. Os sapatos impecavelmente limpos, as meias subidas. A camisa com o quadriculado nos mesmos tons. A malha lisa e composta logo por cima. O cabelo excessivamente liso e penteado. Os olhos grados, os ouvidos atentos. Se não me falha a memória, um relógio no pulso. Já na altura, no pulso que hoje se impõe. Não servia para coisa alguma, bem se percebe. No fundo, já denunciava quão beto e polido havia de me conhecer. E sentava-me como manda a lei, por ordem da minha imaginação, numa cadeira privilegiada ou num sofá estratégico. Jamais furtivamente, que a impaciência fazia-me chegar de igual para igual. Como se fosse, alguma vez, possível. Mas devolviam-me, quando não me impunham outros afazeres, a decência de ter lugar. E deliciava-me com o baile de prosa que por ali acontecia. A política exaltava os discursos, o futebol animava os convivas, os vinhos e as suas texturas amenizavam os saberes, o trabalho e os seus reveses impunham-se em todo o tempo e o mundo inteiro guardava lugar ali. E eu inundado pelo fascínio. Absorto, não poucas vezes, pela desinformação e desconhecimento característicos da idade. Mas fazia sentido. E quando assim é, fica o calor de experimentar. O tempo passa, e confiando nele, nem guardamos as contas de o ver seguir. E, volvido, vejo-me na cadeira de outrora ou no sofá confortável. Crescido, ainda com os olhos grados e os ouvidos atentos. O relógio com as horas certas. Os sapatos limpos, que podem ser os ténis mais inusitados e os menos preferidos de quem vê. O cabelo com outro preceito. E a mesma convicção de que quero fazer parte. Agora eloquente e escutado. Espero que igualmente polido, menos beto. Mantenho o amor e o interesse. Pelos meus, pelas palavras dos meus. Com a hombridade de me fazer presente e assumir que vou mudar. E estar preparado para ver o espanto e o amor a condicionar os gestos, as palavras. Vou mudar. E não posso oferecer garantias de que para melhor. Mudei e não consigo explicar, senão porque me custava mais não arriscar. Que me restem sempre estas pessoas, os seus discursos longos, a sala com os melhores assentos. E a necessidade desmedida de os querer ver, escutar e sentir.

30.5.17

Prerrogativa de alguns.

A vista condiz com o balão de gin que tenho à minha frente. A companhia também. Somos três à espera do quarto elemento. Todos virados para o assombro que pode ser um lugar aos pés de alguém. A altura não debota as cores, antes dá-lhes vida, afina os traços e confere-lhes rigor. O mar parece mais azul, o pouco casario finge-se imaculado. O azul vai bem com tudo (nota de redacção: sem qualquer referência clubista associada). Aqui não é excepção. Daqui não fugimos à ilusão. Perpetramos o sossego de não ir para além da prosa. Esta manhã, logo cedo, uma cara amiga gabou-me os ténis – na verdade, não sei o nome que têm, não são ténis, não são alpergatas, porventura um híbrido do calçado. Tipicamente veranais. Ao final da manhã, já havia esgotado um tanto do que me esperava. A tarde foi um soluço dos dias e um conhecido falou-me do meu bom ar. Agora, com a tarde a fazer-se velha, deleitado com a companhia destes amigos. Já nem faço referência à vista. Que há-de estar sempre ali, assim lhe seja feita justiça. Aqui, ao redor das bebidas bem temperadas, com o quarto elemento já na teia, lembrámos como algumas conversas já nos maçam. Como redefinimos o foco, a direcção do que nos acrescenta e do que já não nos sustenta. Noutros tempos, talvez menos dotados de filtro. Mais reveladores de uma imaturidade que não sendo flagrante, sobrevoava-nos. Temos tempo para lembrar que o Benfica fez-se rei da época e também veste encarnado. A última, ideia de um beto que não nega as raízes. Do berço cheio de modos de peralta e do futebol dos vermelhos. Nele, entre risadas, assenta-lhe bem o encarnado. Discutimos a influência dos outros nas acções de cada um. E do quão tardo pode ser embarcar nessa rota. Enfim, a tagarelice de sempre. Com muita carolice à mistura. Enquanto isto, o mundo ao redor não ferve tanto na banda das coisas boas. Mas ao nosso lado, duas belas jovens trocam fios de flores miudinhas. Cruzam as mãos e um beijo singelo. Nem tudo está errado. Quando no meio de tudo isto, ainda há quem escolha viver.

25.5.17

Afecto ardente numa 'Vespa'.

Vem uma Vespa disparada, de azul petróleo pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos resguardados por uns Dior. Nos pés, trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas. Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao céu. Aplausos. Ela desce da Vespa azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida, braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade. Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.

24.5.17

Moralmente salutar.

As desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido. Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos, em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado. Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar. Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas, com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada. Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.

23.5.17

Moderação dos dias.

Sento-me de fronte para o computador portátil, na cabeça traço um sem fim de ideias. Elaboro-as de um jeito precoce, ainda sem tempo para as desenhar no papel. Ameaço-me com a certeza de que muitas não vão avante. Ficam na intimidade dos meus desmazelados pensamentos. E, sem prejuízo, não me constrange, nem tira a liberdade. Hei-de arranjar espaço. O disco externo morreu, parece não fazer sentido. Mas cabe nele toda a cumplicidade. Nele, uma vida engolida. Perto do esquecimento. Tomo notas para me lembrar que os dias vão mudar. Lixei um dedo com uma inócua - contudo potente arma - folha branca. Lancei um palavrão ao ar. Faço uma pausa. Descarrego um café. Não lhe coloco açúcar e deixo-o temperar com um curto descanso. Assomo-me à janela. Tudo como dantes. Nesta travessa há descanso. Na rua seguinte, avançam carros sem cessar. Volto ao computador, a regra mantém-se. Tudo como dantes. Sigo entre e-mails antigos, a recuperar pendências. Ligo uma vez mais o som, para fazer companhia. No telemóvel um dos grupos pergunta para quando uma conversa pelo Skype. A verdade é que venho procrastinando, à espera de dias mais propensos. Que não chegam. Com promessas de que é sempre amanhã, no máximo depois. Afastando-me dos copos de vinho que não partilhámos, da prosa que deixámos pendente. Dos rumores que não chegam a verdades contadas. Chega mais uma cobrança e não me sinto confiante com o termo. Não me obrigam, não me maniatam nem constrangem. É a saudade da distância a tomar as rédeas. E tristes os dias em que o inverso se torne na norma. Tenho de tentar salvar os documentos putativamente perdidos no disco externo. Há sempre quem nos acorde. E não merece senão gratidão.

18.5.17

Em diferido. #59

Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.

9.5.17

Palanque matinal.

Ora um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma, que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.

27.4.17

Inócuas tertúlias e um jardim repensado.

É, toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco, por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um sonoro CHEERS! Temos música de fundo, sai de uma coluna Marshall, negra e ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente. Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram. Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de fundo. Olaré!

2.3.17

Entusiasmo matutino.

O dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso. Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.

1.3.17

Ser humano do sexo feminino.

Chega no BMW, com o cabelo arranjado, de longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar. Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós, sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona do BMW. Os olhares alheios têm um só destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns, conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica, profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos, em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher, bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia, difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de existir.

27.2.17

Rotundo festim na secretária.

No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como, a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração. Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas, tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem mais redondos.

22.2.17

Em diferido. #55

Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

21.2.17

Estro que me enche o peito.

Ainda petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia, um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar. Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada. Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração decente.

20.2.17

Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.

Já lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar. As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês, talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar. Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado. Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra, por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora, as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira da escola. Uma vida cheia. Não duvides.

6.2.17

Virente memorizar.

Rabiscar a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.

30.1.17

Verosímil simpatia.

Vem de longe a minha, mais do que simpatia, admiração pelo genuinamente bom. No mesmo sentido, noutra e maior escala, vem de um ponto que se despede de memória, o meu sentimento de reverência para com as pessoas boas. Não acontece ser um apontamento fugaz, uma voz que deixa aqui, entre a luz do sol e a penumbra da noite, a tentação de fazer parecer. Fá-lo sempre, seja sob o brilho que irradia, seja sob o escuro do destino fatalmente taciturno da noite. Dá-se a sorte no momento em que não fujo à verdade de, sem modéstia, lembrar que conheço gente boa. Mulheres e homens que vivem por e para se dedicar a causas tão terrenas quanto necessárias. Sem que belisquem a individualidade e deixem fugir a vida. Que são fiéis à psique evoluída, ao coração que bate certo e não se deixa indiferente, à carne que não sucumbe ao medo, e que se cumprem no caminho inverso da avalancha que a sociedade atesta. Afasto-me, com a devida vénia, dessa definição. Serei alguém que procura medir a razão e a convicção interna, bem como, no trato com o outro. Fico comedido perante a dimensão da bondade alheia. Também de longe, vem a minha amizade com um tipo que não tem escala. Antes mesmo do tempo em que me apelidava, num tom jocoso, de beto. Respondi-lhe sempre que sou um fruto do acaso. Rimo-nos tanto, que as esperanças eram seguir o trecho do que haviam desenhado para nós. Volvidos estes anos, somos os mesmos. Ele insiste na promoção do bem. Investe no corpo e na alma. Viaja sem destino para o lugar que lhe guarda o fado e a lucidez. No nosso último encontro, dois dias antes da viagem que se seguia, fomos para um lugar de encontros antigos, numa sala reservada para nós, a conversar e a lembrar sem equívocos. Éramos seis à volta de uma mesa improvisada. Que este é um tipo que não escolhe o design. De cerveja na mão, de calções e t-shirt, de sandálias no pé, falou, uma vez mais, com mérito. Hei-de de escrever sobre o meu amigo que é amigo da vida. Dias depois, havia de receber um e-mail dando conta da sua saída das redes sociais – na verdade, da única que utilizava e de forma bastante breve – no mesmo, continuava com um texto que se curva no desejo de voltar a ouvi-lo. Demos um abraço forte. O tipo bom, que tem prosa bonita e sandálias de couro e o tipo que agradece a amizade, calça sapatos bonitos e ténis da moda, dá o braço à perseguição de fazer melhor e que, sem prejuízo, continua a afirmar que é um beto do acaso.