Ser
beto ou dondoca é uma definição gasta, mas persistente. De resto, como as
práticas tão típicas de um Portugal que insiste em vestir de gala as vergonhas
de um país desbaratado e desesperado. Aqueles casacos de fato, com um corte tão
desajustado do corpo, são negligentes escolhas. As calças seguem o caminho que
está guardado. As escolhas de quem não guarda na boca e na educação a obrigação
de escolher um bom fato. Uma segunda pele, ouvi algures e voltei a ouvir mais e
mais vezes. É um ensinamento de imagem, da imagem que faz uma pessoa. Arrisco
eu, que não deixo de compreender quem erra na escolha. Eu sei e percebo que não
conhecemos todos as mesmas verdades, porque na vida a verdade muda de feição
com a necessidade. A elegância de mão dada com a combinação do corte, tecido,
cor e os botões de punho. Os últimos, para esta medida, nada importam. Mas é
vê-las, às erradas escolhas, a fazerem-se passear sobre os corpos que não lhes
pertencem. Hoje, adultos formados e homens confirmados. Como se um fato medisse
a má rês de uma pessoa. Voltamos à universidade onde, a dada altura, os fatos
aparecem. Para alguns, pela primeira vez. Ou compram na loja que todos
conhecemos ou pedem emprestado ao familiar que o mantém minimamente em bom
estado com ajuda da naftalina. Paro, então, para me lembrar dos meus amigos que
seguiram direito. Poucos, para ser sincero. Uma escolha cómoda, lembro-me de
falarmos disso. Por estes dias, desses poucos, apenas um se manteve fiel. Os
outros fugiram da área. Usam, contudo, a formação para outras profissões. E,
passa tão rápido que nunca mais tiveram vontade de colocar um fato. Ressalvo
ocasiões formais. Na anarquia que rouba o ser para eleger o parecer, só veste a
pele quem quer.
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21.10.14
4.10.13
Parcimónia.
Viver
contracorrente confunde-se com pauperismo. Viver no sentido contrário dos comuns
mortais, custar-nos-á, a curto, médio ou longo prazo, um valor. Para uns,
maior, para outros, menor. Composta a verdade, ninguém é desavindo quando
insiste no melhor. Mesmo que opte por dispensar a prudência. À margem, aniquilando
a culpa e dispensando plagiar vidas repetidas. No final, temos o saldo. É proveitoso.
Porque, afinal, sustenta-se na feliz competência de experimentar.
24.9.13
Sem nexo.
Gabo,
sem fim, as pessoas que, com condições, arquitectam e decoram as suas casas
como se vivessem num museu de índole duvidosa. A cada dia, ao acordar,
sentir-se-ão perdidos. Tamanha é a informação. Ostentando a dura ausência de
nexo. Sem se cansarem.
11.9.13
Tenho um amigo.
Num
bar, largas horas, entre amigos e imperiais, constatamos que, raras vezes, as
pessoas se dão tal e qual como são. Sem defesas ou apoios. Nunca podemos
julga-las conhecer totalmente. Tantas vezes, as próprias, desconhecem-se. Na
essência, no todo. Tenho um amigo que, por esta altura, está longe e, meses
antes de ir embora, tomou coragem e contou-nos. Terá sido mistura de coragem
com incapacidade de gerir, por muito mais tempo, a verdade. Tenho um amigo que
julgava conhecer. Tenho um amigo que, quase dez anos depois, foi sincero.
Ainda, de roda das imperiais, tivemos a certeza, nunca o conhecemos. Nunca o
conhecemos por inteiro. É diferente. Não necessariamente melhor ou pior. Tão
naturalmente diferente. Tenho um amigo que, só muitos anos depois, se sentiu
capaz de ser ele. Não lamento só agora o conhecer melhor. Lamento,
sinceramente, os anos que perdeu. Os anos que deitou fora, por incapacidade.
Lamento, todos os dias, não ter sido sempre ele.
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