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21.10.14

Uma espécie de provérbio.

Ser beto ou dondoca é uma definição gasta, mas persistente. De resto, como as práticas tão típicas de um Portugal que insiste em vestir de gala as vergonhas de um país desbaratado e desesperado. Aqueles casacos de fato, com um corte tão desajustado do corpo, são negligentes escolhas. As calças seguem o caminho que está guardado. As escolhas de quem não guarda na boca e na educação a obrigação de escolher um bom fato. Uma segunda pele, ouvi algures e voltei a ouvir mais e mais vezes. É um ensinamento de imagem, da imagem que faz uma pessoa. Arrisco eu, que não deixo de compreender quem erra na escolha. Eu sei e percebo que não conhecemos todos as mesmas verdades, porque na vida a verdade muda de feição com a necessidade. A elegância de mão dada com a combinação do corte, tecido, cor e os botões de punho. Os últimos, para esta medida, nada importam. Mas é vê-las, às erradas escolhas, a fazerem-se passear sobre os corpos que não lhes pertencem. Hoje, adultos formados e homens confirmados. Como se um fato medisse a má rês de uma pessoa. Voltamos à universidade onde, a dada altura, os fatos aparecem. Para alguns, pela primeira vez. Ou compram na loja que todos conhecemos ou pedem emprestado ao familiar que o mantém minimamente em bom estado com ajuda da naftalina. Paro, então, para me lembrar dos meus amigos que seguiram direito. Poucos, para ser sincero. Uma escolha cómoda, lembro-me de falarmos disso. Por estes dias, desses poucos, apenas um se manteve fiel. Os outros fugiram da área. Usam, contudo, a formação para outras profissões. E, passa tão rápido que nunca mais tiveram vontade de colocar um fato. Ressalvo ocasiões formais. Na anarquia que rouba o ser para eleger o parecer, só veste a pele quem quer.

4.10.13

Parcimónia.

Viver contracorrente confunde-se com pauperismo. Viver no sentido contrário dos comuns mortais, custar-nos-á, a curto, médio ou longo prazo, um valor. Para uns, maior, para outros, menor. Composta a verdade, ninguém é desavindo quando insiste no melhor. Mesmo que opte por dispensar a prudência. À margem, aniquilando a culpa e dispensando plagiar vidas repetidas. No final, temos o saldo. É proveitoso. Porque, afinal, sustenta-se na feliz competência de experimentar.

24.9.13

Sem nexo.

Gabo, sem fim, as pessoas que, com condições, arquitectam e decoram as suas casas como se vivessem num museu de índole duvidosa. A cada dia, ao acordar, sentir-se-ão perdidos. Tamanha é a informação. Ostentando a dura ausência de nexo. Sem se cansarem.

11.9.13

Tenho um amigo.

Num bar, largas horas, entre amigos e imperiais, constatamos que, raras vezes, as pessoas se dão tal e qual como são. Sem defesas ou apoios. Nunca podemos julga-las conhecer totalmente. Tantas vezes, as próprias, desconhecem-se. Na essência, no todo. Tenho um amigo que, por esta altura, está longe e, meses antes de ir embora, tomou coragem e contou-nos. Terá sido mistura de coragem com incapacidade de gerir, por muito mais tempo, a verdade. Tenho um amigo que julgava conhecer. Tenho um amigo que, quase dez anos depois, foi sincero. Ainda, de roda das imperiais, tivemos a certeza, nunca o conhecemos. Nunca o conhecemos por inteiro. É diferente. Não necessariamente melhor ou pior. Tão naturalmente diferente. Tenho um amigo que, só muitos anos depois, se sentiu capaz de ser ele. Não lamento só agora o conhecer melhor. Lamento, sinceramente, os anos que perdeu. Os anos que deitou fora, por incapacidade. Lamento, todos os dias, não ter sido sempre ele.